5.2.13
1.2.13
OS ANJOS
para José Rodrigues
Os anjos designam a altura.
Sobem e descem a escada.
Entre o invisível e o azul
os anjos pairam atentos.
Pairam abraçados ao nome
e aos sonhos que temos.
J. Alberto de Oliveira
Imagem: Capa de O ANJO INEFÁVEL (plaquete, fora de mercado)
24.1.13
O INVISÍVEL
A criança que me
destina
a ler o invisíveltem pensamentos no mar.
Em contraponto me ensina
um dialecto inspirado
nos jogos com o vento.
Da nudez a luzir no mar
ela diz-me tudo
ou quase tudo em segredo.
J. Alberto de Oliveira
31.12.12
ESCRITOS EM TOM MENOR
Escritos em tom menor
os versos ardem
e não deixam cinza.
Em fogo e flor do sal
se consubstanciam
meus versos atentos
a um rumor de passos
no relento do jardim.
12.12.12
GÉNESIS
Para que ficasse pronto
e perfeito o arco do mundo
uma só vez um dia
o ritmo de Deus foi sopro
e soluço
da natureza do azul.
da natureza do azul.
J. Alberto de Oliveira
4.12.12
SUCCINCTA VITA
Subir ao ponto sublime
do mais estrito silêncio
todo virado para dentro
do que levo aos ombros
é um destino de vida.
É jura da luz nos olhos
mais que absortos.
Meus olhos pensativos
de nem pensar.
Meus olhos no auge total.
todo virado para dentro
do que levo aos ombros
é um destino de vida.
É jura da luz nos olhos
mais que absortos.
Meus olhos pensativos
de nem pensar.
Meus olhos no auge total.
J. Alberto de Oliveira
12.11.12
DUAS PORTAS ENTREABERTAS
O fulgor da bondade e o exercício do belo seduzem a alma.
São duas portas entreabertas. Uma dá acesso aos jardins da santidade. A
outra dá para os caminhos da estética do espírito.
Como não sei ser santo, resta-me ir por atalhos e veredas,
interrogando a vida e o verbo.
Sou poeta.
J. Alberto de Oliveira
J. Alberto de Oliveira
10.11.12
A PLACIDEZ DO OUTONO
Há sítios onde a placidez do outono se consubstancia
com a geometria das colinas solares,
com a devagarosa água corredia,
com o desassossego dos insectos,
com o perfume das folhas e dos frutos maduros.
Há sítios onde a placidez do outono tece um elo
de amplitude natural,
de júbilo generoso, sensível, intensamente puro.
A dessensibilização do mundo acontece noutros espaços,
nas zonas do poder, da perversidade e da corrupção humana.
J. Alberto de Oliveira
6.11.12
EM VIDRO E VERSOS
Em vidro e versos
abro a cancela ao silêncio.
Abro a cancela
onde passa menos gente.
J. Alberto de Oliveira
22.10.12
FULGURÂNCIAS
O fervor da mão acende o pavio
como se acendesse a noite escura.
O poeta escreve
como se escrevesse para longe.
Uma criança absorta fala
como se falasse o idioma da chuva.
E os anjos voam
como se voassem para sítio nenhum.
J. Alberto de Oliveira
30.9.12
PALAVRAS E HORAS INSPIRADAS
Brinca o fogo com a água
quando o brilho azul do ar
e as varas vegetais da terra
me rasgam a língua.
Quando me ouves a soletrar
palavras e horas inspiradas.
J. Alberto de Oliveira
14.9.12
NO ÂNGULO DA MESA
No ângulo da mesa há poesia e álcool
iluminações e paraísos perdidos.
Há uma espécie de férias de verão
no inferno dos poetas malditos.
Lá estão Rimbaud e Verlaine
com seus versos intensos.
Fatin-Latour ao retratar o rosto
fugaz dos poetas e as flores
fixa no tempo zero da pintura
o invisível dos versos e do vinho.
Ao contemplar o álcool e os poetas
o livro das palavras e as flores
os olhos entram pela natureza dentro,
pela natureza ávida dos que viveram.
J. Alberto de Oliveira
ÁGUA SEM POSSE
Naquela fonte muito antiga, desde 1858 que perdura a pedra
onde se escreveu: agoa sem posse.
Magnífico aviso acerca do elemento que é tão munificente
como imprescindível.
Das nascentes a água desce livre ao encontro da sede.
Na inscrição se mostra e lembra que a água é para fluir como dádiva, como substância do feminino, viva, pura e corredia.
Na inscrição se mostra e lembra que a água é para fluir como dádiva, como substância do feminino, viva, pura e corredia.
A pedra, assim escrita, é um sinal de vigilância para os seres viventes e, sobretudo, para os poetas, quando são eles a razão e a fonte do verbo sem posse.
APOSTILA
Quando fotografei a inscrição de 1885, agoa sem nome,
ocorreu-me o texto que imediatamente redigi e mostrei a várias pessoas. Um
jurista leu e lembrou: “aquelas raras inscrições eram colocadas a indicar a
posse pública, porque havia muita água de propriedade privada”.
Sim. É a causa real que eu muito bem conhecia. Mas, fazendo
uso do olhar contemplativo, estético e amantivo, escrevi o que escrevi.
Evidenciei a leitura estética, recusando o sentido
materialmente jurídico.
Compus o texto que os olhos me pediam.
Sem o dom poético o olhar torna-se estéril, involutivo e
rasteiro.
J. Alberto de
Oliveira
NARRATIVA A SÉPIA
Com as vogais da infância me sento à mesa.
Tomo o pão molhado no mel e bebo o leite.
Exposto ao lume no ângulo do lar aceso
convoco a fadiga do entardecer
para depois
adormecer na pausa do melhor beijo.
J. Alberto de Oliveira
24.8.12
PURO E SIMPLES
O ritmo feliz do azul
a articular os nomes.
O movimento jubiloso
do sol a doer no pulso.
O oiro ao rubro
a entardecer o dia.
A alma e sua leveza
a alumiar o invisível.
J. Alberto de Oliveira
23.7.12
SETEMBRO ADENTRO
A minha vida entrou nua
e crua
por setembro adentro.
A minha vida arrebatada
por setembro adentro.
A minha vida arrebatada
à respiração do mundo
e ao sopro intuitivo
e ao sopro intuitivo
de Deus.
Na primeira frase
da língua arderam
Na primeira frase
da língua arderam
os lábios e a saliva.
A minha vida a entrar
por setembro adentro
foi um dom superlativo.
foi um dom superlativo.
J. Alberto de Oliveira
12.7.12
A NATUREZA DA ÁGUA
Para beber a natureza da água
ouve primeiro um segredo.
Intui os sentidos da boca ávida
ou sonha perto do silêncio.
No dialecto arcaico da infância
depura as imagens que lês.
E soletra docemente,
soletra muitíssimo devagar
o causa preciosa e amante
da lídima natureza da água.
J. Alberto de Oliveira - ENTREPOEMAS (2014) – poema corrigido
11.7.12
PRELÚDIOS DE LEITURA
1-
Pode o segredo
sair de si mesmo
e pousar nos olhos
enquanto dormes?
2-
Em forma de lenço
aberto ao vento
o sangue me alumbra.
É coração de estrela
a rubra cor de outubro.
3-
O relâmpago invisível
rasga as telas da vida.
Soletrada em contraluz
a poesia alucina
as águas de leitura.
J. Alberto de Oliveira
12.6.12
TEORIA DO VERBO AMAR
O espaço do verbo amar não tem sombras.
Esplende por inteiro.
Chamo-lhe verbo amar.
E, por ser a evidência da bondade profunda e de suas
incidências, quem o sabe conjugar?
Chamo-lhe verbo amar por ser a soma de todos os modos e
tempos do tempo.
J. Alberto de Oliveira
11.6.12
AS PRIMEIRA FRASES
Quando eu era
criança, os nomes que dizia, todos ou quase todos, eram incompletos. Somente o
volume e as formas das coisas permaneciam inteiras nos meus olhos.
Com os objectos do
mundo, na sua complementaridade justa e geométrica, eu compunha as primeiras
frases, incautas, frágeis e breves.
Eram frases de
fulgor, lúdicas, miríficas e matinais.
J. Alberto de Oliveira
29.5.12
MENINA E MOÇA
Varrido pelo vento e melancolia, o entardecer talvez fosse a pronúncia de um nome perdido.
Talvez fosse o começo da lembrança:
Menina e moça me
levaram de casa de meus pais para longes terras; e qual fosse a causa dessa
minha levada, era pequena, não na soube.
J. Alberto de Oliveira
15.5.12
A TELA SENSÍVEL
Romper a malha
e não ficar.
Romper o tecido
e passar.
Romper a tela
sensível
e passar
através dela
à palavra viva.
Àquela ideia
que não fala.
J. Alberto de Oliveira
14.5.12
MUITO PERTO DE À NOITE
Muito perto de à noite
três vezes disseste
em cadência gradativa
o lume o lume o lume.
Três vezes estremeceste
deixando cair
entre a cinza e fagulhas
o som verbal do silêncio
tecido com linho puro
pela tua mão de escrever.
J. Alberto de Oliveira
2.5.12
A MINHA LEMBRANÇA MAIS ANTIGA
Ia haver o quê? Um serão em torno do linho com danças e
cantares?
O que ia haver no alpendre agrícola da Casa de Formozem?
Luzia o luar nessa noite de verão? Não sei.
Eu era um menino que tinha apenas dois anos de vida bem
medida.
Eu só me lembro que havia o quase escuro a encher o
alpendre.
Lembro-me, e parece que ainda estou ver: alguém subiu para
um banco.
Com o simples mover da mão, o homem fez com que subitamente
a lâmpada, suspensa num barrote, iluminasse o alpendre.
Eu só me lembro e sei que foi magnífico o instante
da lâmpada que se tornou viva.
Com o toque da luz no limiar do escuro, eu comecei a ser
contemplativo.
J. Alberto de Oliveira
27.4.12
O LADO ESQUERDO
Sempre sonhei para o lado ofegante
para o lado mais rubro das coisas.
Sonho sempre para o lado esquerdo
de quem entra no meu sono
com frases rutilantes e segredos.
J. Alberto de Oliveira
23.4.12
FLOR ILUMINANTE
Ia Lídia pelo jardim adentro
e deu com a ígnea flortema de seus pensamentos.
Ia Lídia colher delícias e flores
e veio com uma rosa
flor iluminante de seus amores.
J. Alberto de Oliveira
2.4.12
PRELÚDIO MÍSTICO
Por uma pequena frase
de júbilo puríssimo
as primícias
do crepúsculo ardem.
O linho do silêncio
é místico e precioso.
O beijo de um segredo
alumbra a flor do sono.
J. Alberto de Oliveira
alumbra a flor do sono.
J. Alberto de Oliveira
26.3.12
VERSOS AVULSOS
São palavras feridas
nas arestas da pedra
as palavras que secam
meus olhos e a língua.
São elas o pulso febril
de versos avulsos.
Meus versos de medir
a vida a prumocom varas de lápis-lazúli.
J. Alberto de Oliveira
22.3.12
INVERTER A FALA
Trabalho numa oficina da linguagem
com substâncias delicadíssimas.
Lido com palavras superlativas
e sinais de pausa e silêncios.
O meu ofício é inverter a fala
com o lápis da jubilação.
Começo pela argila de mim mesmo
J. Alberto de Oliveira
14.3.12
PUNTI LUMINOSI
Por veredas e baldios de outrora
o sentido era voltar sempre em desatino.
Dizendo de outro modo:
Dizendo de outro modo:
na infância o pensamento
era um ponto de incêndios.
era um ponto de incêndios.
O cerne e vórtice
donde subiam faúlhas de ínvias letras.
donde subiam faúlhas de ínvias letras.
J. Alberto de Oliveira
12.3.12
EM CHAMA VIVA
Por acção justa do lume
a boca nomeia o rubor
que a tange e perfuma.
É caligrafia do silêncio
em chama viva
a estrita fala de Deus.
J. Alberto de Oliveira
21.2.12
MEDITATIVO E ABSORTO
Naqueles dias, eu bebia a luz que emanava do mais longe
na linha do horizonte.
Depois esperava, meditativo e absorto, a hora do
crepúsculo.
O momento propício ao sono das aves.
E com as aves descia ao íntimo da noite fechada pelo escuro.
J. Alberto de Oliveira
16.2.12
A CANCELA DO JARDIM
Quando abres a cancela
que dá para o jardim
o que dizes ao pensamento?
Em que ponto da melancolia
estremecem os insectos
J. Alberto de Oliveira
30.1.12
DA POEIRA DOS SONHOS
Quando acordas
o que transmites à tela das horas?
O que dizes quando regressas
da poeira dos sonhos
afeitos ao curso da memória?
J. Alberto de Oliveira
2.1.12
OS SONHOS
Os sonhos que nos visitam facilmente são esquecidos.
Mas os próprios sonhos não esquecem nada.
A todo o tempo regressam ao infinitivo do verbo sonhar.
J. Alberto de Oliveira
4.11.11
NÓMADA ESTRANHO
Desta vez a lembrança veio ter comigo sem relevos,
sem verbo, sem rodeios.
Irrompeu de lado nenhum, dizendo-me apenas:
“Ó nómada estranho, em terra alheia!”
J. Alberto de Oliveira
DOIS VERSOS DE F. ECHEVARRÍA
Fernando Echevarria, com dois versos apenas, confirma a
infinitude:
[…] Mas irmos devagar alarga-nos. Prediz
o nome que teremos ao ver que tudo é grande.
Parafraseando o poeta, por minha conta e risco, pergunto:
E que nome seremos ao ver que tudo é grande?
J. Alberto de Oliveira
2.11.11
O JOGRAL DA ALEGRIA
A imaginação poética e santificante de Francisco de Assis, a partir do momento em que ficou cego, redobrou de louvores para glória das coisas e de seu Criador no tempo e na eternidade.
Sem luz na retina dos olhos que a terra lhe havia de comer, cantou a possessão e o resplendor do irmão Sol.
Repartiu a aura e o louvor pelo corpo dos elementos da vida.
S. Francisco de Assis, o jogral da alegria, intuiu com lídimo fulgor as notas musicais do Universo.
Elevou o desejo de todas as criaturas ao júbilo perfeito.
J. Alberto de Oliveira
24.10.11
AS MINHAS TRÊS VIDAS
As minhas três vidas:
a vida anterior a mim
a vida corrente
e a restante vida.
J. Alberto de Oliveira
10.9.11
ANTES DE ADORMECER
Com o dia a cair
uma vela se acende.
As aves chamam-se
antes de adormecer.
E tu onde queres ainda
dizer-me um segredo?
J. Alberto de Oliveira
30.7.11
O ANJO INEFÁVEL
O anjo inefável
é um ser do céu errante.
Uma sombra de chama
verbal e branca
é o meu anjo da palavra.
J. Alberto de Oliveira
Desenho: José Rodrigues
12.7.11
A ESTÉTICA DO FOGO
Após vinte e sete anos voltei para ler a carta.
Soletrei-a até ao último parágrafo, até ao seu amistoso fecho.
E depois, depois recorri à estética do fogo.
Tenho confiança nos apontamentos da memória e nos recursos da alma.
J. Alberto de Oliveira
ABUNDÂNCIA VIVA
Água infindável
e corredia.
Abundância viva
e primordial.
Matéria escrita
no sentido das linhas
ou dos versos
que a esperam.
Água pronunciada
no dialecto da terra.
Matriz atenta à vida
e à paixão inspirada
que há dentro dela.
e corredia.
Abundância viva
e primordial.
Matéria escrita
no sentido das linhas
ou dos versos
que a esperam.
Água pronunciada
no dialecto da terra.
Matriz atenta à vida
e à paixão inspirada
que há dentro dela.
J. Alberto de Oliveira
14.6.11
SANGUE LIMPO
Não sou de ascendência nobre.
No meu nome não há posses, armas e pergaminhos.
Nasci com sangue limpo.
Dos meus antepassados herdei o que apenas preservo: a nobreza de alma e de sentimentos.
Nasci do lado do silêncio da memória.
O único destino ou a fortuna que me assiste, me julga e conjuga e faz distinto, é a sensibilidade.
Em mim próprio, a sensibilidade se mistura com a alteza de alma.
J. Alberto de Oliveira
4.6.11
SEGUIR COM O OLHAR
Seguir com o olhar
as coisas sem alcance.
E depois
depois adormecer
na escrita de haver
sono e lembranças.
A invisível sintaxe
de versos brancos.
J. Alberto de Oliveira
27.5.11
MANANCIAL DE ROSA
Primeiro alumiou
a nudez e o aprumo
de róseas manhãs.
Depois veio difundir
a aura do pensamento.
Primeiro foi dádiva
e leitura preciosa
no pulso do tempo.
Depois em cada hora
um manancial de rosa.
J. Alberto de Oliveira
26.5.11
CALIGRAFIA ESTRITA
27.4.11
PLENITUDE NOCTURNA
8.4.11
LUZINDO AO RELENTO
O PENSAMENTO EM SANGUE
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