13.9.14
27.8.14
O GRITO
Entre as mãos
esconde o rosto.
O mundo arde ao
abandono.
Ressoa o grito a escaldar de dor.
Ressoa o grito a escaldar de dor.
J. Alberto de Oliveira
4.8.14
"RUA DA PORTA TREZE" - Vila Nova de Cerveira
ALGUÉM NA RUA
Alguém se serviu
do sol e da altura
para estender
em fios do vento
sombrinhas às cores.
Alguém ali me viu
no eixo feliz da rua
J. Alberto de Oliveira
31.7.14
OPUS CONTINUUM
Com o brilho da mão
ensina-me o que sonhas.
Desenha sobre o linho
o verbo mais intenso
em ponto de silêncio.
J. Alberto de Oliveira
15.7.14
QUATRO ROSAS RUBRAS
Quatro rosas rubras
de sangue e ternura.
Quatro primícias
luzentes no teu nome
dito por inteiro.
Quatro varas floridas
alumiam oh Mãe
J. Alberto de Oliveira
MEMORANDUM
Olinda Ferreira de Oliveira
13-07-1924 - 16-05-2013
4.7.14
SOPHIA
Quando me inclino sobre a paisagem textual da Sophia
estremeço como um
leitor indefeso.
A constelação de versos e frases é tão viva e clara
que me fere o olhar.
As palavras da Poeta evidenciam o injusto e denunciam o impuro.
Muito gostaria eu
de também denunciar as mentes académicas
que lhe trocaram
o pequeníssimo talhão de terra
ao ar livre
por um panteão
propício ao bafio, a turistas e penumbra.
J. Alberto de Oliveira
1.7.14
OH MARAVILHA DA ALMA
para a Lys
Oh maravilha da alma
que se alicerça no fulgor
de coisas cheias de infância.
Oh alumiação de ser
o vento na escrita a corrigir
sentimentos e frases pequenas.
Oh duplo sopro inebriante
ao citar-me o nome de Alice
J. Alberto de Oliveira
Retrato de Alice Liddell no Verão de 1858
16.6.14
UMA VEZ PEDI À NOITE
Uma vez pedi à noite
para se sentar comigo
num recanto do teu abrigo.
Ainda me lembro:
eu queria ver-te no auge do sono.
Eu queria linda Inês
adormecer
em teus olhos postos em sossego.
Eu
queria todas as lembranças
que
na alma escondias:
entre sonhos e pensamentos
eram
tudo memórias de alegria.
J. Alberto de Oliveira
Fonte:
Luís Vaz de Camões – Lusíadas – Canto III
8.6.14
ALUMIAÇÕES
Oh dulçor de segredos e
versos
nas alumiações de Bëatrice.
Oh fulgor e maravilha
da grande rosa de três cores.
Oh suma claridade suprema
de substâncias eternas.
Com o teu nome apura o amor
che move il sole e l’altre stelle
a luzir onde luz Dante Alighieri.
J. Alberto de Oliveira
Dante Alighieri - desenho de José Rodrigues
Texto e desenho expostos no Palácio do Freixo - Porto - no
âmbito da Festa de Itália: "o mundo em italiano".
Texto e desenho expostos no Palácio do Freixo - Porto - no
âmbito da Festa de Itália: "o mundo em italiano".
27.5.14
O RUBRO SANGUE
O coração
está sempre a mudar de sítio.
Nunca se engana.
Adivinha onde mais dói.
O rubro sangue
movido pelo sentir do coração
lateja onde a vida mais sofre.
J. Alberto de Oliveira
8.5.14
A ARTE MATERNAL DA MULHER
A mulher
não esconde a sua natureza
íntima e cúmplice da terra.
É lição exímia da realeza
a arte maternal da mulher.
J. Alberto de Oliveira
Desenho - (1902): Pablo
Picasso - Maternidade
26.4.14
À MESA DE LEITURA
Quando o
menino se sentou à mesa de leitura, com o seu primeiro livro de todos os dias,
a mãe cozia uma fornada de pão.
A carqueja
e a caruma ardiam no forno. Difundiam o fumo que perfumava as roupas, os
cabelos, as mãos,
os olhos e o espaço em volta.
Do ventre
quente do forno saíam faúlhas que transmitiam o prazer de ver e de estar ali.
O fumo e as
faúlhas subiam com as ideias e o sentimento das palavras que o menino soletrava.
– Filho, lê
um bocadinho mais alto para eu ouvir.
As mães são
as melhores companheiras de leitura dos filhos.
O lume
luzia no forno.
A massa
levedava em silêncio e aconchego na masseira fechada, sob o efeito do crescente
que a vizinha trouxera, na véspera, ao entardecer.
O lume
ardia sob os efeitos do seu próprio destino.
E a criança
lia, soletrando o que aprendia.
– Mãe, tu
gostas tanto de cozer pão como gostas de ser mãe?
– Se as
mulheres não tivessem filhos, não era preciso o trabalho da cozedura do pão.
Não havia gente a pedir o pão que se come todos os dias. E se faltasse o pão,
até mesmo a nossa boca perdia o sabor.
A mãe, a
primeira mestra de todas as leituras, tinha sempre uma resposta. Ela sabia de
cor bonitos e sábios segredos.
– Filho,
vou-te dar um conselho que me ensinou a minha madrinha, quando eu era pequena,
e que nunca mais esqueci: “pão, roupa e um vintém, não carrega(m) ninguém.”
– Não
percebi nada!
– Um dia
vais entender.
Naquela
casa, a mãe sustinha o esteio da vida, os rituais do quotidiano, os prazeres da
fala e da infância.
Naquela
casa térrea, aprendia-se a esperar o pão e as delícias da ternura. Aprendia-se
a descobrir frases futuras.
– Filho, lê
essa ideia outra vez!
– O quê,
mãe?
– As palavras
que leste agora no livro. Diz outra vez!
– As rosas
são as namoradas do sol.
– Que lindo,
filho! Nós ainda vamos aprender muitas coisas assim bonitas. Nós havemos de
saber mais do que todas as coisas que se ensinam nas escolas todas do mundo.
A mãe reconhecia
o filho à mesa de leitura.
O menino
reconhecia a mãe no acto de cozer o pão, no modo de pensar, nos sentimentos, no
olhar e nas palavras que dizia.
Mãe e filho
eram duas verdades unidas por um elo único e precioso.
O menino
que lia devagarosamente, não adivinhava que nas lembranças da mãe se inteirava
e repetia o momento do seu próprio nascimento.
Debaixo da pele da infância que a mãe nutria, o
filho era a imagem do crescimento contínuo, esperando o pão nosso de cada dia.
O menino
soletrava, decifrando pequenas frases maternais invisíveis nas linhas do livro.
Um dia, alguém
disse mais ou menos isto: dois seres afectuosamente confidentes, unidos pelo
prazer de existir, são causa mútua de vida e júbilo.
Outro dia,
o menino de sua mãe, que nasceu poeta e poeta cresceu, lembrou-se de escrever
num caderno de versos:
No miolo do
pão
as mães deixam o sal
o sopro e o
coração.
J. Alberto de Oliveira
in O teu Dia, Mãe
C ART- 2014
17.4.14
LUZ E VERSOS FUTUROS
Se me vires dormente ou morto
não me deixes assim exposto.
Ressuscita-me através do nome.
Não me queiras cego e surdo.
Preciso de luz e versos futuros.
J. Alberto de Oliveira
2.4.14
CINCO BALÕES
– Cinco balões baloiçam
presos aos teus dedos. Os cinco balões que eu daria ao vento e à vida.
– Queres, então, que os solte? Posso deixá-los ir?
– Agora não. Espera pelo fim de mim.
J. Alberto de Oliveira
15.3.14
PELA PRIMEIRA VEZ
Foi um gosto e surpresa ir à escola pela primeira vez,
numa certa manhã de Outubro do ano 1952.
Perdido
no meu ar pensativo, de casa me levou minha Mãe.
A
professora, airosa e moça, com doçura de alma e boas palavras me recebeu. Disse
um não sei quê de espanto e alvoroço. Depois, sentou-me numa carteira, a par de
uma menina com espírito e nome de Rosa, que em todo o resto do dia me ensinou o
que já aprendera de cor.
Pelo
sentido intuitivo de três corações falantes e femininos se abriu para mim a
porta da escola.
Com a solicitude maternal principiava o exercício contínuo de escrever e ler.
Começou nesse dia outonal uma pronúncia
diversa e dura.
Firmava-se
o alicerce verbal do futuro.
J. Alberto de Oliveira
9.3.14
OS MESTRES DE PROVAR O VINHO
Os mestres de provar o vinho não falam.
Estudam os efeitos do mosto no escuro.
Com a boca adivinham o labor
da luz que amadureceu as uvas.
Eles dão ao pensamento a combustão da saliva.
Com a língua movem a cor e o auge do vinho.
J. Alberto de Oliveira
23.2.14
DIADORIM
Diadorim.
O nome escrito e narrado por João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas.
Diadorim.
Um nome. Uma figura enigmaticamente iluminante.
Pronunciar Diadorim suscita um não sei quê.
O sexo de ser Diadorim é inesperado e desassossegante.
Nome e figura não condizem com o real quotidiano.
Diadorim é o nome fulgor, libidinal e diverso. Um
poema de inspiração contínua.
O nome Diadorim, em seu desígnio e sonoridade, é o poema mais
pequeno da língua portuguesa.
J. Alberto de Oliveira
18.2.14
PRELÚDIO VESPERTINO
Mais firme e justa que o pulso
a bater em cadência musical
corria a voz que chamava
à hora exímia do crepúsculo.
Com amor e o sopro leve
a mãe reduzia a distância
J. Alberto de Oliveira
1.2.14
BRINCAR COM A ALMA
Quando eu não posso brincar
com a alma
as horas ficam sem ressonâncias.
De bruços caio no lamaçal
de morrer.
Faltam-me as palavras
e as imagens de ver.
Quando eu não posso brincar
com a alma
J. Alberto de Oliveira
Fotografia: José Marafona
19.1.14
A SINTAXE DA VIDA
Ando ainda a aprender a ler.
Ainda aprendo a apurar a sintaxe da vida
para um dia morrer em paz
com as bagadas que me restam.
E que a morte seja a bênção do olhar que me quer
para além do olhar.
J. Alberto de Oliveira
Fotografia: José Marafona
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