1.7.14

OH MARAVILHA DA ALMA


                                               

                                           para a Lys

Oh maravilha da alma
que se alicerça no fulgor

de coisas cheias de infância.

Oh alumiação de ser 
o vento na escrita a corrigir

sentimentos e frases pequenas.

Oh duplo sopro inebriante
ao citar-me o nome de Alice

no país das maravilhas.

J. Alberto de Oliveira

Retrato de Alice Liddell no Verão de 1858

8.6.14

ALUMIAÇÕES



Oh dulçor de segredos e versos
nas alumiações de Bëatrice.

Oh fulgor e maravilha
da grande rosa de três cores.

Oh suma claridade suprema
de substâncias eternas.

Com o teu nome apura o amor
che move il sole e l’altre stelle

a luzir onde luz Dante Alighieri.

J. Alberto de Oliveira


Dante Alighieri - desenho de José Rodrigues

Texto e desenho expostos no Palácio do Freixo - Porto - no
âmbito da Festa de Itália: "o mundo em italiano".

27.5.14

O RUBRO SANGUE



O coração
está sempre a mudar de sítio.

Nunca se engana.
Adivinha onde mais dói.

O rubro sangue
movido pelo sentir do coração

lateja onde a vida mais sofre.

J. Alberto de Oliveira

8.5.14

A ARTE MATERNAL DA MULHER




A mulher
não esconde a sua natureza

íntima e cúmplice da terra.

É lição exímia da realeza
a arte maternal da mulher.

J. Alberto de Oliveira

Desenho - (1902): Pablo Picasso - Maternidade 

26.4.14

À MESA DE LEITURA



Quando o menino se sentou à mesa de leitura, com o seu primeiro livro de todos os dias, a mãe cozia uma fornada de pão.
A carqueja e a caruma ardiam no forno. Difundiam o fumo que perfumava as roupas, os cabelos, as mãos,
os olhos e o espaço em volta.
Do ventre quente do forno saíam faúlhas que transmitiam o prazer de ver e de estar ali.
O fumo e as faúlhas subiam com as ideias e o sentimento das palavras que o menino soletrava.
– Filho, lê um bocadinho mais alto para eu ouvir.
As mães são as melhores companheiras de leitura dos filhos.
          
O lume luzia no forno.
A massa levedava em silêncio e aconchego na masseira fechada, sob o efeito do crescente que a vizinha trouxera, na véspera, ao entardecer.
           
O lume ardia sob os efeitos do seu próprio destino.
E a criança lia, soletrando o que aprendia.
           
– Mãe, tu gostas tanto de cozer pão como gostas de ser mãe?
– Se as mulheres não tivessem filhos, não era preciso o trabalho da cozedura do pão. Não havia gente a pedir o pão que se come todos os dias. E se faltasse o pão, até mesmo a nossa boca perdia o sabor.
           
A mãe, a primeira mestra de todas as leituras, tinha sempre uma resposta. Ela sabia de cor bonitos e sábios segredos.
– Filho, vou-te dar um conselho que me ensinou a minha madrinha, quando eu era pequena, e que nunca mais esqueci: “pão, roupa e um vintém, não carrega(m) ninguém.”
– Não percebi nada!
– Um dia vais entender.     
           
Naquela casa, a mãe sustinha o esteio da vida, os rituais do quotidiano, os prazeres da fala e da infância.
Naquela casa térrea, aprendia-se a esperar o pão e as delícias da ternura. Aprendia-se a descobrir frases futuras.

– Filho, lê essa ideia outra vez!
– O quê, mãe?
– As palavras que leste agora no livro. Diz outra vez!
As rosas são as namoradas do sol.
– Que lindo, filho! Nós ainda vamos aprender muitas coisas assim bonitas. Nós havemos de saber mais do que todas as coisas que se ensinam nas escolas todas do mundo.
           
A mãe reconhecia o filho à mesa de leitura.
O menino reconhecia a mãe no acto de cozer o pão, no modo de pensar, nos sentimentos, no olhar e nas palavras que dizia.
Mãe e filho eram duas verdades unidas por um elo único e precioso.
           
O menino que lia devagarosamente, não adivinhava que nas lembranças da mãe se inteirava e repetia o momento do seu próprio nascimento.
Debaixo da pele da infância que a mãe nutria, o filho era a imagem do crescimento contínuo, esperando o pão nosso de cada dia.
O menino soletrava, decifrando pequenas frases maternais invisíveis nas linhas do livro.
           
Um dia, alguém disse mais ou menos isto: dois seres afectuosamente confidentes, unidos pelo prazer de existir, são causa mútua de vida e júbilo.
           
Outro dia, o menino de sua mãe, que nasceu poeta e poeta cresceu, lembrou-se de escrever num caderno de versos:

                                      No miolo do pão
                                      as mães deixam o sal 

                                      o sopro e o coração.


J. Alberto de Oliveira 


in O teu Dia, Mãe 
C ART- 2014



17.4.14

LUZ E VERSOS FUTUROS



Se me vires dormente ou morto
não me deixes assim exposto.

Ressuscita-me através do nome.

Não me queiras cego e surdo.
Preciso de luz e versos futuros.

J. Alberto de Oliveira

2.4.14

CINCO BALÕES



– Cinco balões baloiçam presos aos teus dedos. Os cinco balões que eu daria ao vento e à vida.
– Queres, então, que os solte? Posso deixá-los ir?
– Agora não. Espera pelo fim de mim.

J. Alberto de Oliveira

15.3.14

PELA PRIMEIRA VEZ



Foi com júbilo e surpresa ir à escola pela primeira vez, numa certa manhã de Outubro do ano 1952.
Perdido no meu ar pensativo, de casa me levou minha Mãe.
A professora, airosa e moça, com doçura de alma e boas palavras me recebeu. Disse um não sei quê de espanto e alvoroço. Depois, sentou-me numa carteira, a par de uma menina com espírito e nome de Rosa, que em todo o resto do dia me ensinou o que já aprendera de cor.

Pelo sentido intuitivo de três corações falantes e femininos se abriu para mim a porta da escola.
Com a solicitude maternal principiava o exercício contínuo de escrever e ler.
Começou nesse dia outonal uma pronúncia diversa e dura.
Firmava-se o alicerce verbal do futuro.

J. Alberto de Oliveira

9.3.14

OS MESTRES DE PROVAR O VINHO



Os mestres de provar o vinho não falam.
Estudam os efeitos do mosto no escuro.

Com a boca adivinham o labor
da luz que amadureceu as uvas.

Eles dão ao pensamento a combustão da saliva.
Com a língua movem a cor e o auge do vinho.

J. Alberto de Oliveira

18.2.14

PRELÚDIO VESPERTINO



Mais firme e justa que o pulso
a bater em cadência musical

corria a voz que chamava
à hora exímia do crepúsculo.

Com amor e o sopro leve
a mãe reduzia a distância

entre o sono e altura do céu.

J. Alberto de Oliveira

1.2.14

BRINCAR COM A ALMA




Quando eu não posso brincar
com a alma

as horas ficam sem ressonâncias.

De bruços caio no lamaçal
de morrer.

Faltam-me as palavras
e as imagens de ver.

Quando eu não posso brincar
com a alma

falta-me o auge da luz e do ar.

J. Alberto de Oliveira


Fotografia: José Marafona

19.1.14

A SINTAXE DA VIDA



Ando ainda a aprender a ler.
Ainda aprendo a apurar a sintaxe da vida 
para um dia morrer em paz
com as bagadas que me restam.

E que a morte seja a bênção do olhar que me quer 
para além do olhar.



J. Alberto de Oliveira

Fotografia: José Marafona

28.12.13

UM TEMA VIVO DO VENTO



A língua que eu falo
dissolve-se na água

que avidamente bebo.

Com substantivos do mar
é um tema vivo do vento.

Resume-se a dois dedos
de conversa e de silêncio

a língua materna que falo.

J. Alberto de Oliveira

9.12.13

O FIO DE ARIADNE



Oh soberana maravilha
escrever o poema

com a tinta das palavras!

Oh prodígio de vida
tecer o fio de Ariadne

com linfa sal e saliva!

J. Alberto de Oliveira

27.11.13

QUANDO IMAGINO DE MAIS



Quantos anos e dias mais
terei de sal e de lembranças?

Em ti eu me crio ainda
oh Mãe

quando imagino de mais!

J. Alberto de Oliveira

Imagem: H. Matisse

19.11.13

O MEU CLAMOR


Para Deus elevo o meu clamor:
que ninguém me engane a alma

nem me esgane o pescoço.

J. Alberto de Oliveira

17.11.13

CITAÇÃO

 

 
Cito as palavras de cor:
 
Os inteligentes discutem ideias.
Os medíocres falam de coisas e dinheiro.
E os bufarinheiros falam da vida alheia.
 
Quem escreveu assim, tão verticalmente?
Quem foi?
Gostava tanto de lhe dar os parabéns.
 
J. Alberto de Oliveira
 
 
 

6.11.13

O LIVRO



“Porque a alma é um abismo” (Álvaro de Campos), quem a lê no mais profundo dos livros?
Há inúmeros livros. Uns mais preciosos que outros.
Com o espírito dos “que são pedintes e pedem”(Álvaro de Campos), eu só peço o Livro que tanto procuro.
Já foi escrito?

Eu só quero o Livro que me há-de escrever.
Eu só peço o Livro que me ensine a permanecer no juízo da luz.
Que me faça gritar como Álvaro de Campos:
“Merda! Sou lúcido”.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: José Marafona

22.10.13

PARA QUE SERVE A POESIA?



Para que serve a poesia?
Eu sei que há poucos poetas e reduzido é o número dos legentes de poesia. 
Se eles fossem muitíssimos e pudessem formar um exército, sem dúvida que arrasariam o mundo só para conhecer a verdade.
Esta é a possível e única utilidade que devo atribuir à poesia e aos seus amantes.




Ao poeta não basta escrever ou ditar um verso para seu júbilo e consolação.
É preciso ouvir no mais íntimo a fala e a música contínua do anjo.
A tarefa primordial do poeta é lutar com o anjo a horas incertas da noite.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Renato Roque

16.10.13

O PULSO DE BACH



O pulso de Bach, em exercícios musicais,
anula as trevas e fronteiras.

Amplia o horizonte da inteligência e da lucidez,
instaurando a geometria sumptuosa da alma.

Incute o sagrado respeito pelo rigor intuitivo de Deus.

O ritmo dos ventos no pulso de Bach
incita à escuta do silêncio branco.

J. Alberto de Oliveira