9.3.14

OS MESTRES DE PROVAR O VINHO



Os mestres de provar o vinho não falam.
Estudam os efeitos do mosto no escuro.

Com a boca adivinham o labor
da luz que amadureceu as uvas.

Eles dão ao pensamento a combustão da saliva.
Com a língua movem a cor e o auge do vinho.

J. Alberto de Oliveira

23.2.14

DIADORIM




Diadorim.
O nome escrito e narrado por João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas.
Diadorim. 
Um nome. Uma figura enigmaticamente iluminante.
Pronunciar Diadorim suscita um não sei quê.
O sexo de ser Diadorim é inesperado e desassossegante. Nome e figura não condizem com o real quotidiano.
Diadorim é o nome fulgor, libidinal e diverso. Um poema de inspiração contínua.
O nome Diadorim, em seu desígnio e sonoridade, é o poema mais pequeno da língua portuguesa.
J. Alberto de Oliveira 

18.2.14

PRELÚDIO VESPERTINO



Mais firme e justa que o pulso
a bater em cadência musical

corria a voz que chamava
à hora exímia do crepúsculo.

Com amor e o sopro leve
a mãe reduzia a distância

entre o sono e altura do céu.

J. Alberto de Oliveira

1.2.14

BRINCAR COM A ALMA




Quando eu não posso brincar
com a alma

as horas ficam sem ressonâncias.

De bruços caio no lamaçal
de morrer.

Faltam-me as palavras
e as imagens de ver.

Quando eu não posso brincar
com a alma

falta-me o auge da luz e do ar.

J. Alberto de Oliveira


Fotografia: José Marafona

19.1.14

A SINTAXE DA VIDA



Ando ainda a aprender a ler.
Ainda aprendo a apurar a sintaxe da vida 
para um dia morrer em paz
com as bagadas que me restam.

E que a morte seja a bênção do olhar que me quer 
para além do olhar.



J. Alberto de Oliveira

Fotografia: José Marafona

28.12.13

UM TEMA VIVO DO VENTO



A língua que eu falo
dissolve-se na água

que avidamente bebo.

Com substantivos do mar
é um tema vivo do vento.

Resume-se a dois dedos
de conversa e de silêncio

a língua materna que falo.

J. Alberto de Oliveira

9.12.13

O FIO DE ARIADNE



Oh soberana maravilha
escrever o poema

com a tinta das palavras!

Oh prodígio de vida
tecer o fio de Ariadne

com linfa sal e saliva!

J. Alberto de Oliveira

27.11.13

QUANDO IMAGINO DE MAIS



Quantos anos e dias mais
terei de sal e de lembranças?

Em ti eu me crio ainda
oh Mãe

quando imagino de mais!

J. Alberto de Oliveira

Imagem: H. Matisse

19.11.13

O MEU CLAMOR


Para Deus elevo o meu clamor:
que ninguém me engane a alma

nem me esgane o pescoço.

J. Alberto de Oliveira

17.11.13

CITAÇÃO

 

 
Cito as palavras de cor:
 
Os inteligentes discutem ideias.
Os medíocres falam de coisas e dinheiro.
E os bufarinheiros falam da vida alheia.
 
Quem escreveu assim, tão verticalmente?
Quem foi?
Gostava tanto de lhe dar os parabéns.
 
J. Alberto de Oliveira
 
 
 

6.11.13

O LIVRO



“Porque a alma é um abismo” (Álvaro de Campos), quem a lê no mais profundo dos livros?
Há inúmeros livros. Uns mais preciosos que outros.
Com o espírito dos “que são pedintes e pedem”(Álvaro de Campos), eu só peço o Livro que tanto procuro.
Já foi escrito?

Eu só quero o Livro que me há-de escrever.
Eu só peço o Livro que me ensine a permanecer no juízo da luz.
Que me faça gritar como Álvaro de Campos:
“Merda! Sou lúcido”.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: José Marafona

22.10.13

PARA QUE SERVE A POESIA?



Para que serve a poesia?
Eu sei que há poucos poetas e reduzido é o número dos legentes de poesia. 
Se eles fossem muitíssimos e pudessem formar um exército, sem dúvida que arrasariam o mundo só para conhecer a verdade.
Esta é a possível e única utilidade que devo atribuir à poesia e aos seus amantes.




Ao poeta não basta escrever ou ditar um verso para seu júbilo e consolação.
É preciso ouvir no mais íntimo a fala e a música contínua do anjo.
A tarefa primordial do poeta é lutar com o anjo a horas incertas da noite.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Renato Roque

16.10.13

O PULSO DE BACH



O pulso de Bach, em exercícios musicais,
anula as trevas e fronteiras.

Amplia o horizonte da inteligência e da lucidez,
instaurando a geometria sumptuosa da alma.

Incute o sagrado respeito pelo rigor intuitivo de Deus.

O ritmo dos ventos no pulso de Bach
incita à escuta do silêncio branco.

J. Alberto de Oliveira

6.10.13

ESCREVER SOL





Com os dedos
cheios de tinta

do azul do mundo.

Com os dedos
sobre os olhos

replenos de azul

eu sei doravante

como escrever sol.

J. Alberto de Oliveira

DO AVESSO

 

Quando as roupas são a minha segunda pele,
acontece o quê, se me desnudo?
Fico todo à flor da nudez.
Despir-me é virar-me do avesso.
O desvestimento livra-me dos adornos, do disfarce,
dos complementos.
Talvez a nudez seja a pureza mais próxima da verdade
entendida como um espaço de profundíssimas águas.
 
J. Alberto de Oliveira


21.9.13

UM SELO DE LEITURA




Nasci afeiçoado à melancolia
e ao único verbo que estudo.

Por razões de alma e nudez
sou na ampola do mundo

um selo de leitura pensativa
lendo um verso de cada vez.

J. Alberto de Oliveira


18.9.13

NOCTURNO QUASE PERFEITO





Não me perguntes
donde vem a noite

com a lua quase perfeita
em sua fase de letra D.

Não me perguntes
nem peças nada.

Desenha-me apenas a lua
e o silêncio por inteiro.

J. Alberto de Oliveira

23.8.13

RAÍZES AFECTUOSAS





O verbo de meus versos conjuga-se no modo e tempo
de uma surpresa de cada vez.

Hoje, a hora do amanhecer foi para as crianças, para
os cantores do louvor e para os colecionadores de sonhos
e lembranças.

Todos os dias eu peço aos cantores do louvor
que me traduzam o timbre do silêncio na cal 
e me ensinem a ler no solfejo do inefável.

J. Alberto de Oliveira


30.7.13

ANTÓNIO NOBRE




Hirto de mágoa,
Anto falou a eito acerca de si próprio,
das pessoas, de lugares e coisas do quotidiano.

Restaurou os sons e a sintaxe da melancolia.

Ao Mundo vim em terça-feira
Um sino ouvia-se dobrar!
[…]
Vim a subir pela ladeira
E, numa certa terça-feira,
Estive já pra me matar…

Com o Poeta vieram e dobraram 
as dores que depressa o levaram.

J. Alberto de Oliveira


28.7.13

FERNANDO ECHEVARRÍA





A leitura dos versos de Fernando Echevarría pede a companhia musical de J. S. Bach.
Música e versos cumprem um modo único de consonâncias e aprumo.
Do extremo dos versos do poeta ao extremo das notas musicais de J. S. Bach sente-se o espaço, o tempo, o ritmo do mundo.

J. Alberto de Oliveira