2.3.13

O POETA







Coisa leve, alada e sagrada é o poeta...

Platão - Íon



- Em meu entender, Sócrates - disse ele - a parte primacial da educação (paideia) de um homem é ser entendido em poesia. E isso consiste em ser capaz de compreender as palavras dos poetas, o que é bem feito e o que não é, saber distinguir e dar as suas razões a quem o interrogar.

Platão - Protágoras

1.3.13

RUMO À IDADE SUPREMA









Rumo à idade suprema
não arrepies caminho.

Não pares
nem pagues portagem

ao transpor o poente.

J. Alberto de Oliveira

16.2.13

DAS VARANDAS DE VER





Das varandas de ver
o céu altivo das nuvens

no lugar de Vermodium
eu via as aves

a mover o imo da luz.

Do ritmo quente
de suas vidas aladas

nasciam pensamentos.

Nascia a pronúncia
de versos futuros.

J. Alberto de Oliveira


5.2.13

ENTREPOEMAS







Da nudez de Deus
entrepoemas nasci.

Por sete gotas vivas
Deus à vida me deu.

J. Alberto de Oliveira

1.2.13

OS ANJOS





                                                                        para José Rodrigues
Os anjos designam a altura.
Sobem e descem a escada.

Entre o invisível e o azul
os anjos pairam atentos.

Pairam abraçados ao nome
e aos sonhos que temos.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Capa de O ANJO INEFÁVEL (plaquete, fora de mercado)



24.1.13

O INVISÍVEL




A criança que me destina
a ler o invisível

tem pensamentos no mar.

Em contraponto me ensina
um dialecto inspirado

nos jogos com o vento.

Da nudez a luzir no mar
ela diz-me tudo

ou quase tudo em segredo.

J. Alberto de Oliveira

31.12.12

ESCRITOS EM TOM MENOR





Escritos em tom menor
os versos ardem

e não deixam cinza.

Em fogo e flor do sal
se consubstanciam

São meus os versos atentos

ao rumor furtivo
de segredos aproximativos.

J. Alberto de Oliveira

12.12.12

GÉNESIS





Para que ficasse pronto
e perfeito o arco do mundo

uma só vez de uma só vez

o imo de Deus foi sopro
de substância ininterrupta.

Foi de palavra o nó do azul.

J. Alberto de Oliveira


4.12.12

SUCCINCTA VITA





Subir ao ponto sublime

do mais estrito silêncio

todo virado para dentro
do que levo aos ombros

é um destino de vida.

É jura da luz nos olhos
mais que absortos.

Meus olhos pensativos
de nem pensar.

Meus olhos no auge total.

J. Alberto de Oliveira

12.11.12

DUAS PORTAS ENTREABERTAS





O fulgor da bondade e o exercício do belo seduzem a alma.
São duas portas entreabertas. Uma dá acesso aos jardins da santidade. A outra dá para os caminhos da estética do espírito.

Como não sei ser santo, resta-me ir por atalhos e veredas, interrogando a vida e o verbo.
Sou poeta.

J. Alberto de Oliveira


10.11.12

A PLACIDEZ DO OUTONO





Há sítios onde a placidez do outono se consubstancia
com a geometria das colinas solares,
com a devagarosa água corredia,
com o desassossego dos insectos,
com o perfume das folhas e dos frutos maduros.

Há sítios onde a placidez do outono tece um elo
de amplitude natural,
de júbilo generoso, sensível, intensamente puro.

A dessensibilização do mundo acontece noutros espaços,

nas zonas do poder, da perversidade e da corrupção humana.

J. Alberto de Oliveira





6.11.12

EM VIDRO E VERSOS





Em vidro e versos
abro a cancela ao silêncio.

Abro a cancela
onde passa menos gente.

J. Alberto de Oliveira

30.9.12

PALAVRAS E HORAS RESPIRADAS





Brinca o fogo com a água
quando o brilho azul do ar

e as varas vegetais da terra
me rasgam a língua.

Quando me ouves a soletrar
palavras e horas respiradas.

J. Alberto de Oliveira


14.9.12

NO ÂNGULO DA MESA




No ângulo da mesa há poesia e álcool
iluminações e paraísos perdidos.

Há uma espécie de férias de verão
no inferno dos poetas malditos.

Lá estão Rimbaud e Verlaine
com seus versos intensos.

Fatin-Latour ao retratar o rosto
fugaz dos poetas e as flores

fixa no tempo zero da pintura
o invisível dos versos e do vinho.

Ao contemplar o álcool e os poetas
o livro das palavras e as flores

os olhos entram pela natureza dentro,
pela natureza ávida dos que viveram.

J. Alberto de Oliveira




ÁGUA SEM POSSE




Naquela fonte muito antiga, desde 1858 que perdura a pedra onde se escreveu: agoa sem posse.
Magnífico aviso acerca do elemento que é tão munificente como imprescindível.
Das nascentes a água desce livre ao encontro da sede.

Na inscrição se mostra e lembra que a água é para fluir como dádiva, como substância do feminino, viva, pura e corredia.

A pedra, assim escrita, é um sinal de vigilância para os seres viventes e, sobretudo, para os poetas, quando são eles a razão e a fonte do verbo sem posse.


APOSTILA

Quando fotografei a inscrição de 1885, agoa sem nome, ocorreu-me o texto que imediatamente redigi e mostrei a várias pessoas. Um jurista leu e lembrou: “aquelas raras inscrições eram colocadas a indicar a posse pública, porque havia muita água de propriedade privada”.
Sim. É a causa real que eu muito bem conhecia. Mas, fazendo uso do olhar contemplativo, estético e amantivo, escrevi o que escrevi.
Evidenciei a leitura estética, recusando o sentido materialmente jurídico.
Compus o texto que os olhos me pediam.
Sem o dom poético o olhar torna-se estéril, involutivo e rasteiro.


J. Alberto de Oliveira




NARRATIVA A SÉPIA





Com as vogais da infância me sento à mesa.
Tomo o pão molhado no mel e bebo o leite.

Exposto ao lume no ângulo do lar aceso
convoco a fadiga do entardecer

para depois
adormecer na pausa do melhor beijo.

J. Alberto de Oliveira

      

24.8.12

PURO E SIMPLES




O ritmo feliz do azul
a articular os nomes.

O movimento jubiloso
do sol a doer no pulso.

O oiro ao rubro
a entardecer o dia.

A alma e sua leveza
a alumiar o invisível.

J. Alberto de Oliveira





23.7.12

SETEMBRO ADENTRO




A minha vida entrou nua
e crua

por setembro adentro.

A minha vida arrebatada
à respiração do mundo

e ao sopro intuitivo
de Deus.

Na primeira frase
da língua arderam

os lábios e a saliva.

A minha vida a entrar 

por setembro adentro
foi um dom superlativo.

J. Alberto de Oliveira 

12.7.12

A NATUREZA DA ÁGUA




Para beber a natureza da água
ouve primeiro um segredo.

Intui os sentidos da boca ávida
ou sonha perto do silêncio.

No dialecto arcaico da infância
depura as imagens que lês.

E soletra docemente,
soletra muitíssimo devagar

o causa preciosa e amante
da lídima natureza da água.

J. Alberto de Oliveira - ENTREPOEMAS (2014) – poema corrigido








11.7.12

PRELÚDIOS DE LEITURA







1-
Pode o segredo
sair de si mesmo

e pousar nos olhos
enquanto dormes?

2-
Em forma de lenço
aberto ao vento

o sangue me alumbra.

É coração de estrela 
a rubra cor de outubro.

3-
O relâmpago invisível
rasga as telas da vida.

Soletrada em contraluz
a poesia alucina

as águas de leitura.

J. Alberto de Oliveira