6.11.12
EM VIDRO E VERSOS
Em vidro e versos
abro a cancela ao silêncio.
Abro a cancela
onde passa menos gente.
J. Alberto de Oliveira
30.9.12
PALAVRAS E HORAS RESPIRADAS
Brinca o fogo com a água
quando o brilho azul do ar
e as varas vegetais da terra
me rasgam a língua.
Quando me ouves a soletrar
palavras e horas respiradas.
J. Alberto de Oliveira
14.9.12
NO ÂNGULO DA MESA
No ângulo da mesa há poesia e álcool
iluminações e paraísos perdidos.
Há uma espécie de férias de verão
no inferno dos poetas malditos.
Lá estão Rimbaud e Verlaine
com seus versos intensos.
Fatin-Latour ao retratar o rosto
fugaz dos poetas e as flores
fixa no tempo zero da pintura
o invisível dos versos e do vinho.
Ao contemplar o álcool e os poetas
o livro das palavras e as flores
os olhos entram pela natureza dentro,
pela natureza ávida dos que viveram.
J. Alberto de Oliveira
ÁGUA SEM POSSE
Naquela fonte muito antiga, desde 1858 que perdura a pedra
onde se escreveu: agoa sem posse.
Magnífico aviso acerca do elemento que é tão munificente
como imprescindível.
Das nascentes a água desce livre ao encontro da sede.
Na inscrição se mostra e lembra que a água é para fluir como dádiva, como substância do feminino, viva, pura e corredia.
Na inscrição se mostra e lembra que a água é para fluir como dádiva, como substância do feminino, viva, pura e corredia.
A pedra, assim escrita, é um sinal de vigilância para os seres viventes e, sobretudo, para os poetas, quando são eles a razão e a fonte do verbo sem posse.
APOSTILA
Quando fotografei a inscrição de 1885, agoa sem nome,
ocorreu-me o texto que imediatamente redigi e mostrei a várias pessoas. Um
jurista leu e lembrou: “aquelas raras inscrições eram colocadas a indicar a
posse pública, porque havia muita água de propriedade privada”.
Sim. É a causa real que eu muito bem conhecia. Mas, fazendo
uso do olhar contemplativo, estético e amantivo, escrevi o que escrevi.
Evidenciei a leitura estética, recusando o sentido
materialmente jurídico.
Compus o texto que os olhos me pediam.
Sem o dom poético o olhar torna-se estéril, involutivo e
rasteiro.
J. Alberto de
Oliveira
NARRATIVA A SÉPIA
Com as vogais da infância me sento à mesa.
Tomo o pão molhado no mel e bebo o leite.
Exposto ao lume no ângulo do lar aceso
convoco a fadiga do entardecer
para depois
adormecer na pausa do melhor beijo.
J. Alberto de Oliveira
24.8.12
PURO E SIMPLES
O ritmo feliz do azul
a articular os nomes.
O movimento jubiloso
do sol a doer no pulso.
O oiro ao rubro
a entardecer o dia.
A alma e sua leveza
a alumiar o invisível.
J. Alberto de Oliveira
23.7.12
SETEMBRO ADENTRO
A minha vida entrou nua
e crua
por setembro adentro.
A minha vida arrebatada
por setembro adentro.
A minha vida arrebatada
à respiração do mundo
e ao sopro intuitivo
e ao sopro intuitivo
de Deus.
Na primeira frase
da língua arderam
Na primeira frase
da língua arderam
os lábios e a saliva.
A minha vida a entrar
por setembro adentro
foi um dom superlativo.
foi um dom superlativo.
J. Alberto de Oliveira
12.7.12
A NATUREZA DA ÁGUA
Para beber a natureza da água
ouve primeiro um segredo.
Intui os sentidos da boca ávida
ou sonha perto do silêncio.
No dialecto arcaico da infância
depura as imagens que lês.
E soletra docemente,
soletra muitíssimo devagar
o causa preciosa e amante
da lídima natureza da água.
J. Alberto de Oliveira - ENTREPOEMAS (2014) – poema corrigido
11.7.12
PRELÚDIOS DE LEITURA
1-
Pode o segredo
sair de si mesmo
e pousar nos olhos
enquanto dormes?
2-
Em forma de lenço
aberto ao vento
o sangue me alumbra.
É coração de estrela
a rubra cor de outubro.
3-
O relâmpago invisível
rasga as telas da vida.
Soletrada em contraluz
a poesia alucina
as águas de leitura.
J. Alberto de Oliveira
12.6.12
TEORIA DO VERBO AMAR
O espaço do verbo amar não tem sombras.
Esplende por inteiro.
Chamo-lhe verbo amar.
E, por ser a evidência da bondade profunda e de suas
incidências, quem o sabe conjugar?
Chamo-lhe verbo amar por ser a soma de todos os modos e
tempos do tempo.
J. Alberto de Oliveira
11.6.12
AS PRIMEIRA FRASES
Quando eu era
criança, os nomes que dizia, todos ou quase todos, eram incompletos. Somente o
volume e as formas das coisas permaneciam inteiras nos meus olhos.
Com os objectos do
mundo, na sua complementaridade justa e geométrica, eu compunha as primeiras
frases, incautas, frágeis e breves.
Eram frases de
fulgor, lúdicas, miríficas e matinais.
J. Alberto de Oliveira
29.5.12
MENINA E MOÇA
Varrido pelo vento e melancolia, o entardecer talvez fosse a pronúncia de um nome perdido.
Talvez fosse o começo da lembrança:
Menina e moça me
levaram de casa de meus pais para longes terras; e qual fosse a causa dessa
minha levada, era pequena, não na soube.
J. Alberto de Oliveira
15.5.12
A TELA SENSÍVEL
Romper a malha
e não ficar.
Romper o tecido
e passar.
Romper a tela
sensível
e passar
através dela
à palavra viva.
Àquela ideia
que não fala.
J. Alberto de Oliveira
14.5.12
MUITO PERTO DE À NOITE
Muito perto de à noite
três vezes disseste
em cadência gradativa
o lume o lume o lume.
Três vezes estremeceste
deixando cair
entre a cinza e fagulhas
o som verbal do silêncio
tecido com linho puro
pela tua mão de escrever.
J. Alberto de Oliveira
2.5.12
A MINHA LEMBRANÇA MAIS ANTIGA
Ia haver o quê? Um serão em torno do linho com danças e
cantares?
O que ia haver no alpendre agrícola da Casa de Formozem?
Luzia o luar nessa noite de verão? Não sei.
Eu era um menino que tinha apenas dois anos de vida bem
medida.
Eu só me lembro que havia o quase escuro a encher o
alpendre.
Lembro-me, e parece que ainda estou ver: alguém subiu para
um banco.
Com o simples mover da mão, o homem fez com que subitamente
a lâmpada, suspensa num barrote, iluminasse o alpendre.
Eu só me lembro e sei que foi magnífico o instante
da lâmpada que se tornou viva.
Com o toque da luz no limiar do escuro, eu comecei a ser
contemplativo.
J. Alberto de Oliveira
27.4.12
O LADO ESQUERDO
Sempre sonhei para o lado ofegante
para o lado mais rubro das coisas.
Sonho sempre para o lado esquerdo
de quem entra no meu sono
com frases rutilantes e segredos.
J. Alberto de Oliveira
23.4.12
FLOR ILUMINANTE
Ia Lídia pelo jardim adentro
e deu com a ígnea flortema de seus pensamentos.
Ia Lídia colher delícias e flores
e veio com uma rosa
flor iluminante de seus amores.
J. Alberto de Oliveira
2.4.12
PRELÚDIO MÍSTICO
Por uma pequena frase
de júbilo puríssimo
as primícias
do crepúsculo ardem.
O linho do silêncio
é místico e precioso.
O beijo de um segredo
alumbra a flor do sono.
J. Alberto de Oliveira
alumbra a flor do sono.
J. Alberto de Oliveira
26.3.12
VERSOS AVULSOS
São palavras feridas
nas arestas da pedra
as palavras que secam
meus olhos e a língua.
São elas o pulso febril
de versos avulsos.
Meus versos de medir
a vida a prumocom varas de lápis-lazúli.
J. Alberto de Oliveira
22.3.12
INVERTER A FALA
Trabalho numa oficina da linguagem
com substâncias delicadíssimas.
Lido com palavras superlativas
e sinais de pausa e silêncios.
O meu ofício é inverter a fala
com o lápis da jubilação.
Começo pela argila de mim mesmo
J. Alberto de Oliveira
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