15.5.12

A TELA SENSÍVEL






Romper a malha
e não ficar.

Romper o tecido
e passar.

Romper a tela
sensível

e passar
através dela

à palavra viva.

Àquela ideia
que não fala.

Que flui inteira.

J. Alberto de Oliveira

14.5.12

MUITO PERTO DE À NOITE





Muito perto de à noite
três vezes disseste

em cadência gradativa
o lume o lume o lume.

Três vezes estremeceste
deixando cair

entre a cinza e fagulhas

o som verbal do silêncio
tecido com linho puro 

pela tua mão de escrever.

J. Alberto de Oliveira

2.5.12

A MINHA LEMBRANÇA MAIS ANTIGA




Ia haver o quê? Um serão em torno do linho com danças e cantares?
O que ia haver no alpendre agrícola da Casa de Formozem?
Luzia o luar nessa noite de verão? Não sei.
Eu era um menino que tinha apenas dois anos de vida bem medida.
Eu só me lembro que havia o quase escuro a encher o alpendre.
Lembro-me, e parece que ainda estou ver: alguém subiu para um banco.
Com o simples mover da mão, o homem fez com que subitamente
a lâmpada, suspensa num barrote, iluminasse o alpendre.
Eu só me lembro e sei que foi magnífico o instante
da lâmpada que se tornou viva.
Com o toque da luz no limiar do escuro, eu comecei a ser contemplativo.

J. Alberto de Oliveira 

27.4.12

O LADO ESQUERDO




Sempre sonhei para o lado ofegante
para o lado mais rubro das coisas.

Sonho sempre para o lado esquerdo
de quem entra no meu sono

com frases rutilantes e segredos.

J. Alberto de Oliveira



23.4.12

FLOR ILUMINANTE




Ia Lídia pelo jardim adentro
e deu com a ígnea flor

tema de seus pensamentos.

Ia Lídia colher delícias e flores
e veio com uma rosa

flor iluminante de seus amores. 

J. Alberto de Oliveira

2.4.12

PRELÚDIO MÍSTICO




Por uma pequena frase
de júbilo puríssimo

as primícias
do crepúsculo ardem.

O linho do silêncio
é místico e precioso.

O beijo de um segredo
alumbra a flor do sono. 

J. Alberto de Oliveira

26.3.12

VERSOS AVULSOS






São palavras feridas
nas arestas da pedra

as palavras que secam
meus olhos e a língua.

São elas o pulso febril
de versos avulsos.

Meus versos de medir
a vida a prumo

com varas de lápis-lazúli.

J. Alberto de Oliveira

22.3.12

INVERTER A FALA





Trabalho numa oficina da linguagem
com substâncias delicadíssimas.

Lido com palavras superlativas
e sinais de pausa e silêncios.

O meu ofício é inverter a fala
com o lápis da jubilação.

Começo pela argila de mim mesmo
e termino no oiro da alumiação.

J. Alberto de Oliveira

14.3.12

PUNTI LUMINOSI




Por veredas e baldios de outrora 
o sentido era voltar sempre em desatino.

Dizendo de outro modo:

na infância o pensamento 
era um ponto de incêndios.

O cerne e vórtice 
donde subiam faúlhas de ínvias letras.

J. Alberto de Oliveira

12.3.12

EM CHAMA VIVA



Por acção justa do lume
a boca nomeia o rubor
que a tange e perfuma.

É caligrafia do silêncio
em chama viva
a estrita fala de Deus.

J. Alberto de Oliveira

21.2.12

MEDITATIVO E ABSORTO





Naqueles dias, eu bebia a luz que emanava do mais longe na linha do horizonte.
Depois esperava, meditativo e absorto, a hora do crepúsculo.
O momento propício ao sono das aves.

E com as aves descia ao íntimo da noite fechada pelo escuro.

J. Alberto de Oliveira

16.2.12

A CANCELA DO JARDIM




Quando abres a cancela
que dá para o jardim

o que dizes ao pensamento?

Em que ponto da melancolia
estremecem os insectos

e as flores do silêncio?

J. Alberto de Oliveira

30.1.12

DA POEIRA DOS SONHOS



Quando acordas
o que transmites à tela das horas?

O que dizes quando regressas
da poeira dos sonhos

afeitos ao curso da memória?

J. Alberto de Oliveira

2.1.12

OS SONHOS






Os sonhos que nos visitam facilmente são esquecidos.
Mas os próprios sonhos não esquecem nada.

A todo o tempo regressam ao infinitivo do verbo sonhar.

J. Alberto de Oliveira

4.11.11

NÓMADA ESTRANHO



Desta vez a lembrança veio ter comigo sem relevos,
sem verbo, sem rodeios.
Irrompeu de lado nenhum, dizendo-me apenas:
“Ó nómada estranho, em terra alheia!”

J. Alberto de Oliveira

DOIS VERSOS DE F. ECHEVARRÍA




Fernando Echevarria, com dois versos apenas, confirma a infinitude:

[…] Mas irmos devagar alarga-nos. Prediz
o nome que teremos ao ver que tudo é grande.

Parafraseando o poeta, por minha conta e risco, pergunto:

E que nome seremos ao ver que tudo é grande?

J. Alberto de Oliveira

2.11.11

O JOGRAL DA ALEGRIA




A imaginação poética e santificante de Francisco de Assis, a partir do momento em que ficou cego, redobrou de louvores para glória das coisas e de seu Criador no tempo e na eternidade.
Sem luz na retina dos olhos que a terra lhe havia de comer, cantou a possessão e o resplendor do irmão Sol.
Repartiu a aura e o louvor pelo corpo dos elementos da vida.
S. Francisco de Assis, o jogral da alegria, intuiu com lídimo fulgor as notas musicais do Universo.
Elevou o desejo de todas as criaturas ao júbilo perfeito.

J. Alberto de Oliveira

24.10.11

AS MINHAS TRÊS VIDAS



As minhas três vidas:

a vida anterior a mim
a vida corrente
e a restante vida.

J. Alberto de Oliveira

30.7.11

O ANJO INEFÁVEL




O anjo inefável
é um ser do céu errante.

Uma sombra de chama
verbal e branca

é o meu anjo da palavra.

J. Alberto de Oliveira
Desenho: José Rodrigues

12.7.11

A ESTÉTICA DO FOGO




Após vinte e sete anos voltei para ler a carta.
Soletrei-a até ao último parágrafo, até ao seu amistoso fecho.
E depois, depois recorri à estética do fogo.
Tenho confiança nos apontamentos da memória e nos recursos da alma.

J. Alberto de Oliveira