19.10.10

A JANELA DOS VENTOS




Com o pulso do fulgor
abre a janela

que dá para os ventos
que voam para longe.

E se faça corpo dela
o pensamento

de só haver sonho
e o mar da barca bela.

J. Alberto de Oliveira

Photo: Ana Afonso

2.10.10

O OUTONO





Uma pausa absorta
de luz

rente ao sublime.

Aladas folhas
pairam em declive.

É o outono.

J. Alberto de Oliveira

Photo: J. A. de Oliveira

24.9.10

O DELICADO LENÇO





Frases e outros filamentos
de tangíveis lembranças

tecem de sol a sol

o delicado lenço
que me há-de cobrir a alma.


J. Alberto de Oliveira

3.8.10

UMA SÓ VEZ NA INFÂNCIA





Hoje lembrei-me de fugir
com um sonho de sete páginas em branco.


E fui sem dizer nada a ninguém.


Fugi para onde o tempo é um desenho livre.
Fui para o tempo de uma só vez na infância.

J. Alberto de Oliveira

16.7.10

POETICAMENTE





O poema que vou escrevendo irrompe nas folhas de rascunho como um ajuste de contas. Pela trama da emoção, pelo ritmo e rigor que lhe transmito, amadurece luzente e altivo.


O poema que vou escrevendo acontece à hora de vigília clandestina. Respira pela calada sensitiva do pensamento. Esquiva-se ao lápis da censura. Foge ao gume da tesoura inquiridora. Despista qualquer investigação policial.


Quero um poema que minta, ao ponto de se transfigurar em vórtice da verdade.


O poema é segredo e a estratégia. Sangra em silêncio e mistério.


No poema, sou mensageiro de mim ou de quê?
No poema que vou escrevendo, de quem é o desejo?

J. Alberto de Oliveira

12.7.10

UMA GOTA DE CHUVA





Na transparência do vidro
uma gota de chuva

é uma gota de vida só.

É tão minúsculo o abrigo
onde a luz

da alma inteira se recolhe.

J. Alberto de Oliveira


7.7.10

A LÍNGUA NO FOGO







Inteira e alumbrada ardia
nas frases sentidas que lia.

Com o gume cego dos ventos
ia pelo cristal da fala adentro.

Tangivelmente acendia
a língua no fogo de sete dias.


J. Alberto de Oliveira

1.6.10

VIANDANTES DA ALEGRIA





Vieram e bateram 
à porta

os enlameados
viandantes da alegria.

Mas ninguém
ninguém abriu a porta.

E seguiram caminho
por esse mundo fora

perdidos de alegria.


J. Alberto de Oliveira

Photo: Ana Afonso


11.5.10

DA ALMA TANGÍVEL




Acordo para ler
o primeiro sonho

da noite acesa
nos dedos do sono.

Acordo para ler

o furtivo jogo
da alma tangível

nos espelhos
musicais de Deus.

J. Alberto de Oliveira

21.4.10

A MULHER-DOÇURA DO VENTO





Sentada na soleira da porta, a mulher-doçura do vento recebia o que vinha do mar.
O visível e o invisível fluíam no seu olhar contemplativo.
Entre leves sombras de névoa e luz, entre sons de linhas de água e a pronúncia de algumas frases, parecia-lhe ouvir musicalmente os segredos que há muito, muitíssimo tempo não ouvia assim.


Veio o Poeta. E, com a mão direita pousada no ombro da mulher, perguntou:
- Como te chamas?
A mulher-doçura do vento respondeu:
- O meu nome anda perdido no livro da tua palavra.


J. Alberto de Oliveira

18.3.10

MATÉRIA ILUMINANTE




Preciso de matéria iluminante
e sensitiva.


Matéria branca e amada
para tecer os lenços da fala.


Preciso de figuras
e lugares famintos de vida.

J. Alberto de Oliveira



Photo: Busto de António Nobre no Funchal

13.3.10

A SABEDORIA DO AVISO




E porque não entendia o sentido, insistiu na pergunta:
- A que te referes: aos porcos ou às pérolas?
- À sabedoria do aviso: não demos pérolas a porcos.
- Os porcos são animais imundos, comem tudo.
- As pérolas são indigestas e muito belas! - disse eu.
- Os porcos não gostam de pérolas?
- Calcam-nas aos pés com voluptuoso desdém.


E não entendia ou não queria entender o sentido.
Mas eu, mais tarde ou mais cedo, ainda hei-de trocar,
por um verso de pérolas, toda a metafísica do mar.


J. Alberto de Oliveira

16.2.10

ÍNDICE PERFEITO




Do alvor de sua voz
nascia o que pedia.

Nascia o índice perfeito
da alegria pura.

Por sete ou mais versos
de amor antigo no coração

pedia uma fatia de vida.

Pedia que lhe dessem
algumas sementes de trigo

para aquela cotovia
que adormecia na sua mão.

J. Alberto de Oliveira

4.1.10

LUMINOSAMENTE





Sob o lenço dos ventos
a vida e o tempo se abrem

doendo luminosamente.

O alvor renasce 
inflamando os segredos 

do sono sonhados
à luz do orvalho.

Dói luminosamente
quando a vida 

em sangue renasce 
da palavra mais atenta.

J. Alberto de Oliveira

15.12.09

A PORTA DO LIVRO




Há títulos de livros que revelam força, pujança e o poder da contemplação. Atraem o olhar e o pensamento. Inspiram desejos e a criatividade.
Há títulos que nos conduzem pela mão ao interior dos seus próprios livros.
Um título pede para nos ligarmos ao corpo do texto e ler até encontrar aquela frase perdida, a frase profunda e fascinante que tem mais poder que todas as outras.
O título e a frase encontrada não são a obra. Mostram apenas um ponto vital, uma chave iluminante, a sarça ardente do escritor em toda a sua sensibilidade e pensamento.

O acto de ler e reler é propício ao encontro de nós mesmos entrevistos nessa frase perdida no corpo do livro.

J. Alberto de Oliveira


2.12.09

PALAVRAS E ROSAS PRECLARAS




Gosto de palavras e rosas tão insistentes
como verdadeiras e preclaras.

São chamas vivas.

Há palavras que sabem mais de mim
que eu das palavras e da abundância que dizem.

Também há rosas que se entreabrem
e alumiam a fala e o silêncio.

Gosto de palavras e rosas preclaras.

J. Alberto de Oliveira

23.11.09

HELENA, O NOME






No pano cru da vida, o nome de alguém é feito com pontos de luz, sangue, sopro e sílabas.
Um nome não é biodegradável.

Helena, por exemplo, é um nome bonito para sempre.
Aquela que acendeu a guerra de Tróia chamava-se Helena. Todavia, o fulgor e o nome nunca se extinguiram.
Helena, o nome dado a tantas e muitas mulheres, é uma dádiva da fala. Deve ser dito e ouvido.

Vamos falar com a Helena!
Mas, vamos primeiro chamar por ela com a distinta sonoridade helénica.

J. Alberto de Oliveira

8.11.09

UM VENTO DE VIDRO VIVO






Há um vento 
de vidro vivo

a pairar na alma
ávida e vigilante

da beleza de ver.

É um vento 
de frases brancas

que ensinam 
o ofício de tecer

fios de relento.

J. Alberto de Oliveira

NO CRISTAL DA MELANCOLIA






No cristal da melancolia
se traduz o declívio 

da chuva.

Com as suas gotas 
refulgem folhas

o chão duro 
e as verdes ervas.

Em finas linhas de vida
é chuva o que leio.

Uma chuva de beijos
nos vidros da janela.

J. Alberto de Oliveira

22.10.09

DA FALA DESEJANTE





João Viana cobre-se 
de poeira e de alma

quando clama.

Quando infunde
no tecido branco

o sopro 
da fala desejante.

Texto: J. Alberto de Oliveira
Pintura: João Viana