21.4.10

A MULHER-DOÇURA DO VENTO





Sentada na soleira da porta, a mulher-doçura do vento recebia o que vinha do mar.
O visível e o invisível fluíam no seu olhar contemplativo.
Entre leves sombras de névoa e luz, entre sons de linhas de água e a pronúncia de algumas frases, parecia-lhe ouvir musicalmente os segredos que há muito, muitíssimo tempo não ouvia assim.


Veio o Poeta. E, com a mão direita pousada no ombro da mulher, perguntou:
- Como te chamas?
A mulher-doçura do vento respondeu:
- O meu nome anda perdido no livro da tua palavra.


J. Alberto de Oliveira

18.3.10

MATÉRIA ILUMINANTE




Preciso de matéria iluminante
e sensitiva.


Matéria branca e amada
para tecer os lenços da fala.


Preciso de figuras
e lugares famintos de vida.

J. Alberto de Oliveira



Photo: Busto de António Nobre no Funchal

13.3.10

A SABEDORIA DO AVISO




E porque não entendia o sentido, insistiu na pergunta:
- A que te referes: aos porcos ou às pérolas?
- À sabedoria do aviso: não demos pérolas a porcos.
- Os porcos são animais imundos, comem tudo.
- As pérolas são indigestas e muito belas! - disse eu.
- Os porcos não gostam de pérolas?
- Calcam-nas aos pés com voluptuoso desdém.


E não entendia ou não queria entender o sentido.
Mas eu, mais tarde ou mais cedo, ainda hei-de trocar,
por um verso de pérolas, toda a metafísica do mar.


J. Alberto de Oliveira

16.2.10

ÍNDICE PERFEITO




Do alvor de sua voz
nascia o que pedia.

Nascia o índice perfeito
da alegria pura.

Por sete ou mais versos
de amor antigo no coração

pedia uma fatia de vida.

Pedia que lhe dessem
algumas sementes de trigo

para aquela cotovia
que adormecia na sua mão.

J. Alberto de Oliveira

4.1.10

LUMINOSAMENTE





Sob o lenço dos ventos
a vida e o tempo se abrem

doendo luminosamente.

O alvor renasce 
inflamando os segredos 

do sono sonhados
à luz do orvalho.

Dói luminosamente
quando a vida 

em sangue renasce 
da palavra mais atenta.

J. Alberto de Oliveira

15.12.09

A PORTA DO LIVRO




Há títulos de livros que revelam força, pujança e o poder da contemplação. Atraem o olhar e o pensamento. Inspiram desejos e a criatividade.
Há títulos que nos conduzem pela mão ao interior dos seus próprios livros.
Um título pede para nos ligarmos ao corpo do texto e ler até encontrar aquela frase perdida, a frase profunda e fascinante que tem mais poder que todas as outras.
O título e a frase encontrada não são a obra. Mostram apenas um ponto vital, uma chave iluminante, a sarça ardente do escritor em toda a sua sensibilidade e pensamento.

O acto de ler e reler é propício ao encontro de nós mesmos entrevistos nessa frase perdida no corpo do livro.

J. Alberto de Oliveira


2.12.09

PALAVRAS E ROSAS PRECLARAS




Gosto de palavras e rosas tão insistentes
como verdadeiras e preclaras.

São chamas vivas.

Há palavras que sabem mais de mim
que eu das palavras e da abundância que dizem.

Também há rosas que se entreabrem
e alumiam a fala e o silêncio.

Gosto de palavras e rosas preclaras.

J. Alberto de Oliveira

23.11.09

HELENA, O NOME






No pano cru da vida, o nome de alguém é feito com pontos de luz, sangue, sopro e sílabas.
Um nome não é biodegradável.

Helena, por exemplo, é um nome bonito para sempre.
Aquela que acendeu a guerra de Tróia chamava-se Helena. Todavia, o fulgor e o nome nunca se extinguiram.
Helena, o nome dado a tantas e muitas mulheres, é uma dádiva da fala. Deve ser dito e ouvido.

Vamos falar com a Helena!
Mas, vamos primeiro chamar por ela com a distinta sonoridade helénica.

J. Alberto de Oliveira

8.11.09

UM VENTO DE VIDRO VIVO






Há um vento 
de vidro vivo

a pairar na alma
ávida e vigilante

da beleza de ver.

É um vento 
de frases brancas

que ensinam 
o ofício de tecer

fios de relento.

J. Alberto de Oliveira

NO CRISTAL DA MELANCOLIA






No cristal da melancolia
se traduz o declívio 

da chuva.

Com as suas gotas 
refulgem folhas

o chão duro 
e as verdes ervas.

Em finas linhas de vida
é chuva o que leio.

Uma chuva de beijos
nos vidros da janela.

J. Alberto de Oliveira

22.10.09

DA FALA DESEJANTE





João Viana cobre-se 
de poeira e de alma

quando clama.

Quando infunde
no tecido branco

o sopro 
da fala desejante.

Texto: J. Alberto de Oliveira
Pintura: João Viana

29.9.09

O OFÍCIO DO POETA





O ofício e obrigação dos poetas não é dizerem as cousas como foram, mas pintarem-nas como haviam de ser ou como era bom que fossem. 
Padre António Vieira

Os poetas são a harpa de apenas duas cordas: imaginação e sentimento. 
Rosalia de Castro

As mães, quando acarinham os filhos, dizem-lhes muitas frases e palavras de equivalente significado, até encontrarem uma, aquela em que o maternal afecto se revele por inteiro, na sua máxima pujança e nitidez. Assim acontece no ofício do poeta.
J. Alberto de Oliveira

17.9.09

O CRISTAL DO PENSAMENTO





Uma aragem fina
e franca por mim passa.


Ressoa na alma
com sua voz menina.


Traz-me à lembrança
o sentimento e a mão


da primeira caligrafia.


Rente às palavras
que rasgam e falam


a escrita principia.


Puro e simples resplende
o cristal do pensamento.

J. Alberto de Oliveira

9.9.09

A HORAS INCERTAS



Escolhi o ofício de servir
o invisível
consonante com o mistério.

Uma cantiga de amor ressoa
na corrente
do tempo a horas incertas.

J. Alberto de Oliveira

Photo: Ana Afonso

28.8.09

O ÂMAGO DO VERBO





Amo o âmago 
do verbo

e suas letras vivas


quase eternas
e molhadas de silêncio.

Respiro
devagarosamente.

Amo
porque arde a vida

impensada.

A vida inscrita
na madeira quente.


J. Alberto de Oliveira

20.7.09

AS PRIMEIRAS LETRAS






Comecei a escrever
desenhando

as primeiras letras
das primeiras frases

com mão feminina.

A mão magnificente
que se transmitia

e sustentava a minha.

J. Alberto de Oliveira

11.7.09

RECADO AMANTE







Em meu querer não concedo
que me atem.


E a haver quem me mate

seja com divino engenho
e arte.

J. Alberto de Oliveira



10.7.09

DAR À LUZ




Dar à luz. Nascer.
Foi dado à luz, assim se diz.
Mas eu não fui dado à luz. 
Nasci às três horas da madrugada do dia _________.
Eu fui dado à noite.
A luz, a claridade fulgurante, eu a procuro e vou dando a mim próprio.
É nesta confluência da noite com o dia que o devir me esboça e designa.

J. Alberto de Oliveira

22.6.09

A SÍNTESE DO FOGO




Tangível como folhas
ao vento

o fulgor das mães
é um ponto no infinito.

É um clarão de sangue
e segredos

o alfabeto das mães
na caligrafia dos filhos.

A síntese do fogo
é seu amor aceso na alma.


Poema: J. Alberto de Oliveira
Fotografia: Ana Afonso

10.6.09

EM SETE VERSOS




Um lenço de linho
foi o meu berço.

Um lenço de alma
e sentimentos.

Um lenço de linho
foi em sete versos

o primeiro livro.


J. Alberto de Oliveira