4.1.10

LUMINOSAMENTE





Sob o lenço dos ventos
a vida e o tempo se abrem

doendo luminosamente.

O alvor renasce 
inflamando os segredos 

do sono sonhados
à luz do orvalho.

Dói luminosamente
quando a vida 

em sangue renasce 
da palavra mais atenta.

J. Alberto de Oliveira

15.12.09

A PORTA DO LIVRO




Há títulos de livros que revelam força, pujança e o poder da contemplação. Atraem o olhar e o pensamento. Inspiram desejos e a criatividade.
Há títulos que nos conduzem pela mão ao interior dos seus próprios livros.
Um título pede para nos ligarmos ao corpo do texto e ler até encontrar aquela frase perdida, a frase profunda e fascinante que tem mais poder que todas as outras.
O título e a frase encontrada não são a obra. Mostram apenas um ponto vital, uma chave iluminante, a sarça ardente do escritor em toda a sua sensibilidade e pensamento.

O acto de ler e reler é propício ao encontro de nós mesmos entrevistos nessa frase perdida no corpo do livro.

J. Alberto de Oliveira


2.12.09

PALAVRAS E ROSAS PRECLARAS




Gosto de palavras e rosas tão insistentes
como verdadeiras e preclaras.

São chamas vivas.

Há palavras que sabem mais de mim
que eu das palavras e da abundância que dizem.

Também há rosas que se entreabrem
e alumiam a fala e o silêncio.

Gosto de palavras e rosas preclaras.

J. Alberto de Oliveira

23.11.09

HELENA, O NOME






No pano cru da vida, o nome de alguém é feito com pontos de luz, sangue, sopro e sílabas.
Um nome não é biodegradável.

Helena, por exemplo, é um nome bonito para sempre.
Aquela que acendeu a guerra de Tróia chamava-se Helena. Todavia, o fulgor e o nome nunca se extinguiram.
Helena, o nome dado a tantas e muitas mulheres, é uma dádiva da fala. Deve ser dito e ouvido.

Vamos falar com a Helena!
Mas, vamos primeiro chamar por ela com a distinta sonoridade helénica.

J. Alberto de Oliveira

8.11.09

UM VENTO DE VIDRO VIVO






Há um vento 
de vidro vivo

a pairar na alma
ávida e vigilante

da beleza de ver.

É um vento 
de frases brancas

que ensinam 
o ofício de tecer

fios de relento.

J. Alberto de Oliveira

NO CRISTAL DA MELANCOLIA






No cristal da melancolia
se traduz o declívio 

da chuva.

Com as suas gotas 
refulgem folhas

o chão duro 
e as verdes ervas.

Em finas linhas de vida
é chuva o que leio.

Uma chuva de beijos
nos vidros da janela.

J. Alberto de Oliveira

22.10.09

DA FALA DESEJANTE





João Viana cobre-se 
de poeira e de alma

quando clama.

Quando infunde
no tecido branco

o sopro 
da fala desejante.

Texto: J. Alberto de Oliveira
Pintura: João Viana

29.9.09

O OFÍCIO DO POETA





O ofício e obrigação dos poetas não é dizerem as cousas como foram, mas pintarem-nas como haviam de ser ou como era bom que fossem. 
Padre António Vieira

Os poetas são a harpa de apenas duas cordas: imaginação e sentimento. 
Rosalia de Castro

As mães, quando acarinham os filhos, dizem-lhes muitas frases e palavras de equivalente significado, até encontrarem uma, aquela em que o maternal afecto se revele por inteiro, na sua máxima pujança e nitidez. Assim acontece no ofício do poeta.
J. Alberto de Oliveira

17.9.09

O CRISTAL DO PENSAMENTO





Uma aragem fina
e franca por mim passa.


Ressoa na alma
com sua voz menina.


Traz-me à lembrança
o sentimento e a mão


da primeira caligrafia.


Rente às palavras
que rasgam e falam


a escrita principia.


Puro e simples resplende
o cristal do pensamento.

J. Alberto de Oliveira

9.9.09

A HORAS INCERTAS



Escolhi o ofício de servir
o invisível
consonante com o mistério.

Uma cantiga de amor ressoa
na corrente
do tempo a horas incertas.

J. Alberto de Oliveira

Photo: Ana Afonso

28.8.09

O ÂMAGO DO VERBO





Amo o âmago 
do verbo

e suas letras vivas


quase eternas
e molhadas de silêncio.

Respiro
devagarosamente.

Amo
porque arde a vida

impensada.

A vida inscrita
na madeira quente.


J. Alberto de Oliveira

20.7.09

AS PRIMEIRAS LETRAS






Comecei a escrever
desenhando

as primeiras letras
das primeiras frases

com mão feminina.

A mão magnificente
que se transmitia

e sustentava a minha.

J. Alberto de Oliveira

11.7.09

RECADO AMANTE







Em meu querer não concedo
que me atem.


E a haver quem me mate

seja com divino engenho
e arte.

J. Alberto de Oliveira



10.7.09

DAR À LUZ




Dar à luz. Nascer.
Foi dado à luz, assim se diz.
Mas eu não fui dado à luz. 
Nasci às três horas da madrugada do dia _________.
Eu fui dado à noite.
A luz, a claridade fulgurante, eu a procuro e vou dando a mim próprio.
É nesta confluência da noite com o dia que o devir me esboça e designa.

J. Alberto de Oliveira

22.6.09

A SÍNTESE DO FOGO




Tangível como folhas
ao vento

o fulgor das mães
é um ponto no infinito.

É um clarão de sangue
e segredos

o alfabeto das mães
na caligrafia dos filhos.

A síntese do fogo
é seu amor aceso na alma.


Poema: J. Alberto de Oliveira
Fotografia: Ana Afonso

10.6.09

EM SETE VERSOS




Um lenço de linho
foi o meu berço.

Um lenço de alma
e sentimentos.

Um lenço de linho
foi em sete versos

o primeiro livro.


J. Alberto de Oliveira

6.6.09

METÁFORA AMANTE




Um dia, o linho para mim foi lido em flor.
Era o linho verbal, metáfora amante, a referência conjugada.
Havia concordância estética.
Difundia-se na vida o azul do linho em flor,
um azul abstracto – lídima cor de silêncio e amor.

J. Alberto de Oliveira

22.5.09

A EMOÇÃO DE BACH


J. S. Bach retratado por Elias Gottlob Haussmann em 1748


Algumas vezes a mulher de Bach surpreendeu o marido a chorar quando ele escrevia música.
A profunda emoção do compositor atingia esse ponto.
Na sua vastíssima obra, porém, a emoção foi sempre outra: esteticamente sublime, frondosa e alta como toda a arquitectura do Universo.
Na música de Bach não há choro, choradinhos e choradeiras.

J. Alberto de Oliveira

9.5.09

OLHOS DE PISCINA




Eram os anos 40 e o poeta brasileiro Manuel Bandeira estava numa "tristeza danada" por causa de uma mulher. Saiu do Praia Bar, no Flamengo, e quando ia "na calçada" encontrou a jornalista e escritora Clarice Lispector, que passeava de braço dado com o seu noivo, Maury.
O poeta fica impressionado com "os olhos da moça". E contou este episódio ao jornalista Rubem Braga que não perdeu tempo e escreveu uma crónica, O poeta e os olhos da moça, que começa assim: "Conversa vai, conversa vem, eu disse um nome de uma mulher. O poeta me confessou que há muitos, muitos anos, tem vontade de fazer um poema sobre uma história que ele teve com essa mulher a que chamaremos Maria. Espanto-me: não sabia que o poeta tinha tido alguma história com a Maria. Ele ri: – Não pensa que eu tive um caso com ela. Foi apenas uma impressão minha, foi uma coisa tão subjectiva mas inesquecível – (...) Quando vou pisando na calçada me encontro com Maria, que vem de braço dado com o noivo. Meus olhos entraram directamente nos seus. Meus olhos, com toda a minha tristeza, toda a minha alma desgraçada, entraram de repente nos seus, mergulharam completamente neles. Ela se deteve um instante – eu só via aqueles olhos verdes – e me recebeu como se fosse uma piscina (...)."
Quando Rubem Braga contou esta história a Clarice Lispector, ela não se conseguiu recordar desse encontro e olhou-o, "admirada, com os seus olhos de piscina".

Isabel Coutinho – Público – 06/04/2009

8.5.09

NUM ÂNGULO BRANCO







O poeta que assim escreve,
também ele viu o pássaro que entrou aflito na sala de
exame de Geometria Descritiva – 18/07/2008 – na ESAG.


Enquanto escolhes
visões novas do belo

há um alvoroço da ave
que entrou à deriva

num ângulo branco.

Na área mais viva
das respostas

que nem tu sabes dar.


J. Alberto de Oliveira