10.6.08
DUAS PALAVRAS
- Onde vais buscar o linho verbal que há nos teus versos?
- À substância unitiva e configurante dessas mesmas duas palavras.
J. Alberto de Oliveira
4.6.08
A PRONÚNCIA MUSICAL DE J. S. BACH
6.5.08
O ROSTO QUE SONHA

para José Rodrigues
Não se sabe donde
vêm a mão
o silêncio e a luz.
Com elementos primordiais
e legendas vivas
do Santo de Assis
descem e mostram o rosto
que sonha demasias.
São demasias de ser
e ternura.
Debaixo da mão
do silêncio e da luz
resplende e sonha
o primeiro de muitos rostos.
J. Alberto de Oliveira
5.5.08
DO CANTO MAIOR

[...] perguntam à Sulamita o que o seu amado tem de particular, sobretudo que tem ele que elas também não tenham nos seus
com as colunas e as minhas longas pernas onde gosta de se enrolar como heras e vinha virgem, embrenhou-se, parou ofegante,
deslizava pela minha pele mais escura que a noite, corria pelas minhas formas mais firmes que o solo dos seus combates e, finalmente, depôs em mim o segredo do seu veneno; quando acordei, estava só e tive medo que tivesse morrido ou, se morto,
eu não conseguisse encontrá-lo como meu, ou eu?
Maria Gabriela Llansol - ONDE VAIS DRAMA-POESIA?
10.4.08
OS SONS DA MELANCOLIA
4.4.08
A ALMA A PRUMO
21.3.08
UM NÚMERO VAGABUNDO
17.3.08
MARIA GABRIELA LLANSOL

Maria Gabriela Llansol, que "temia a impostura da língua", tornou-se vulnerável às "sombras do luar libidinal".
Doou-nos o fulgor da textualidade.
Convida-te a seres legente do texto, do "desejo insustentável de eternidade".
M. G. Llansol ensina que "escrever é amplificar pouco a pouco" e que o acto de ler é "uma alma crescendo".
J. Alberto de Oliveira
6.3.08
COM O VESPERTINO COMEÇO
22.2.08
PARA ALÉM DA MARGEM
Os poetas, os santos, os artistas - no seu obstinado desassossego e desejo de perfeição - atingem a consciência, a lucidez sensível e altiva do que são e onde estão:
para além da margem.
J. Alberto de Oliveira
19.2.08
EM SETEMBRO
corre ao vento pelo mundo
alude o amor e o sangue
de seu maternal aprumo.
Resplendece ao vento
a mulher que em setembro
leva rosas da infância
e júbilo em seus cabelos.
J. Alberto de Oliveira
5.2.08
UM ESTREMECER QUIETO
30.1.08
UM ABISMO DE VIDA
Talvez as águas em vertigem
me assinalem o rosto
e os pensamentos
a alma e os sentidos
do corpo todo.
Não olhes nem lhes toques.
É um abismo de vida
o perigo de morte.
J. Alberto de Oliveira
28.1.08
QUASE DE AMOR
Trata-se de um nome
escrito ao frio
muito branco da lua.
Trata-se do esplendor
de geadas e linho puro
num lenço antigo.
Num lenço que dizes
ser quase de amor.
J. Alberto de Oliveira
19.12.07
17.12.07
OH NOITE SUBLIME
30.11.07
NESTE SÍTIO DE SILÊNCIO
15.11.07
UNICUM NECESSARIUM
3.11.07
SOPRO A SOPRO
15.9.07
O SÉTIMO SELO
NO SILÊNCIO DO VIDRO
27.7.07
A OBRA QUE SE ESBOÇA
19.7.07
A REFLEXA LUZ
13.7.07
O ORVALHO DO NOME
9.7.07
O LUXO DE SER
5.7.07
PERDIDAMENTE FLORBELA
29.6.07
PIER PAOLO PASOLINI
Per essere poeti, bisogna avere molto tempo:
ore e ore di solitudine sono il sono modo
perchè si forma qualcosa, che è forza, abbandono,
vizio, libertà, per dare stile al caos.
Io tempo ormai ne ho poco...
Pier Paolo Pasolini
AO VIR DA MADRUGADA
22.6.07
SETE GOTAS
10.5.07
SPREZZATURA
Joy, largueza, proeza - são cânones da cortesia provençal que informaram toda a juventude de Francisco de Assis. Os seus companheiros recordavam-no "pródigo e cauto mercador, mas magnificentíssimo, altivo e generoso, ligeiro e não pouco audaz, superior em grandeza de alma, rico em liberalidade".
No sonho da conversão viu unicamente símbolos cavaleirescos.
Convertido, reclamando-lhe o pai os seus haveres e citado perante o bispo, efectuou uma sprezzatura deslumbrante, despindo-se até ficar nu em pleno episcopado e atirando as roupas para o chão. (O bispo agiu admiravelmente a condizer, cobrindo-o com o seu próprio manto).
Cristina Campo - Os imperdoáveis
21.3.07
15.3.07
O CÂNTICO DOS CÂNTICOS
Fotofrafia: J. A. de Oliveira O Cântico dos Cânticos é um belíssimo poema a iluminar a palavra Amor. É uma vitória dos que amam, tendo como alicerce as forças mais vivas da natureza.
Será possível um grande amor sem a terra fecunda, sem as águas correntes, o sol, as flores, o vento?
Os animais e as plantas rejubilam com o amor do homem e da mulher.
Dir-se-ia que o o Cântico Maior, também assim dito, subtilmente revela que o amor nos humanos move-se do lado do amor de Deus.
É o cântico de núpcias da Criação!
É uma outra forma de exprimir o indizível, o espaço onde a mulher surge primeiro e se movimenta, como quem procura uma alegria perfeita.
Melhor que o homem a mulher sabe do essencial.
J. Alberto de Oliveira
13.3.07
21.2.07
SE VIVO AMOR NOS MOVE
Se vivo amor nos move
que delicado verso
ou palavra amada
em nós começa
em nós se demora
e depois
com sentido pudor
no mar adormece?
J. Alberto de Oliveira
10.2.07
TE DEUM
31.1.07
NO DIALECTO DA ÚMBRIA
Fotografia: J. A. de Oliveira
Perto do fim da sua vida, doente, virtualmente cego, Francisco de Assis escreveu, em louvor a Deus, o "Cantico delle Creature". Redigido numa cabana situada nas proximidades do convento de S. Damião, onde viviam as primeiras clarissas, este texto veio a lume no dialecto da Úmbria, a língua vulgar, do povo, por contraponto ao latim então usado por eruditos e teólogos. Os versos, terminados em 1226, foram publicados no Codex 338 de Assis, um documento no qual, após os versos foi deixado um espaço em branco, um vazio que nunca chegou a receber as notas destinadas a musicar o poema. As palavras de Francisco de Assis, que abraçou o voto de pobreza absoluta como regra de vida, constituem uma espécie de texto panteísta, sendo nele celebrados não só os elementos naturais - o sol, a lua, as estrelas, o vento, a água, o fogo, a terra - mas também "nossa irmã a morte corporal" ("sora nostra morte corporale"), à qual nenhum homem pode escapar. Febril, atormentado por ratos, o Santo, que sempre procurou a negação total de si próprio, quis, mesmo assim, deixar em língua pobre, ainda sem nome, a sua entrega ao silêncio.
Óscar Faria - "Mil Folhas" - 26/01/2007
23.1.07
FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO
Fotografia: J. A. de OliveiraO pórtico da poesia de Fiama:
Água significa ave.
A fala de Fiama Hasse Pais Brandão é um todo coroado pelos seus últimos versos escritos junto ao mar do Algarve:
MEIO DIA / MEU DIA
Na pele sinto o percurso das ondas,
mais amplo e intenso do que o périplo do sol.
E, no entanto, este vai-se gerando a si mesmo,
a cada momento, até à placidez
do meio-dia. São feitos de horas, contínuas, eternas,
aqui, na ria, os dias. Hoje,
meu dia, o coração e o dia rejubilam.
10.1.07
MATÉRIA LUMINOSA
28.12.06
NA MARGEM LUMINOSA
12.12.06
A LÍDIMA COR
Espero do silêncio
a lídima cor da púrpura.
A púrpura molhada
pelo ouro da plenitude.
O ouro verbal das aves.
J. Alberto de Oliveira
11.12.06
LAUDATO SI', MI' SIGNORE!
(...)
Laudato si', mi' Signore, per frate vento
et per aere et nubilo et sereno et onne tempo,
per lo quale a le tue creature dai sustentamento.
Laudato si', mi' Signore, per sora aqua,
la quale è multo utile et humile
et pretiosa et casta.
(...)
S. Francisco de Assis - "Cantico delle Criature"
26.11.06
A VOCAÇÃO DA CALIGRAFIA
15.11.06
A PÚRPURA E O AZUL
A púrpura e o azul
a despir os ombros.
A alma e sua leveza
a iluminar os dedos.
E de súbito no pulso
o bater luzente do nome.
O movimento jubiloso
do lume carnal no pulso.
J. Alberto de Oliveira
10.11.06
O POETA DELIRA
A poesia é uma espécie de língua estrangeira, porque o poeta delira quando escreve.
Será tanto assim?
A resposta vem de Gilles Deleuze:
"L'écrivain, comme dit Proust, invente dans la langue une nouvelle langue, une langue étrangère en quelque sorte. Il met à jour de nouvelles puissances grammaticalles ou syntaxiques. Il entraîne la langue hors de ses sillons coutumiers, il se fait délirer".
UMA LUZ ABSTRACTA
9.11.06
IR CONTIGO A DELFOS
4.11.06
POESIA E MISTÉRIO
Há um domínio da poesia que tem que ver com uma relação com o mistério, com o desconhecido, com aquilo que, do mundo, em nós, nós não compreendemos bem. Aquilo que não conhecemos, mas que reconhecemos como sendo qualquer coisa que já antes existia em nós. Há uma forma de reconhecimento, na poesia, que tem que ver com o mistério.
Manuel António Pina - LER, nº68
COM PALAVRAS
Conta-se que o poeta francês Stéphane Mallarmé terá visitado o pintor Degas no seu atelier e que o pintor lhe disse:
- Oh, caro Mallarmé, tenho ideias fántásticas para poemas, se tivesse o seu talento...
E o poeta respondeu-lhe:
- Meu caro Degas, a poesia não se escreve com ideias, é com palavras.
28.10.06
A QUEIMADURA CELESTE
Em si mesma, para cada um de nós, no momento em que nos toca, como se fosse o dedo de Deus, a poesia esconde-nos da morte. É o único céu portátil de que estamos certos. Um céu de palavras, que de século em século se comunicam, a queimadura celeste que a vida deixou nos nossos vulneráveis corações.
Eduardo Lourenço
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