14.4.09

ESCREVER




Todos querem escrever e poucos são os que resistem a isso. Escrever muito parece ser derivante de um padecimento de angústia e de debilidade em viver; ou o modo de evitar paixões, ou saciá-las sem as sofrer.

Agustina Bessa-Luís

12.4.09

MULHER E POEMA





Com sete desejos de beber
o azul perfeito do mundo.

Com sete gotas
de puríssimo orvalho.

Com a lídima a pronúncia
das águas mais vivas

a aura do poema começa.

Todas as frases
têm a sua regra e princípio

no ser do mar e da mulher.

J. Alberto de Oliveira

7.3.09

A FACA NÃO CORTA O FOGO





isto que às vezes me confere o sagrado, quero eu
dizer: paixão: tirar,
pôr, mudar uma palavra, ou melhor: ficar certo
com a vírgula no meio da luz,
dividindo,
erguendo-me do embrulho da carne obsessiva:
que eu habite durante uma espécie de eternidade
o clarão —


Herberto Helder – A faca não corta o fogo

Fotografia: J. A. de Oliveira

27.2.09

HERBERTO HELDER



Herberto Helder
ou o poema contínuo,
a obra,
a textura,
a escrita,
a pavorosa delicadeza a progredir.

26.2.09

ALGURES NO LIVRO





Sonho às vezes
com o meu nome

escrito algures no livro.

E leio e leio

entre a lenha e o lume.

Na teia de frases

e linhas

arde a paixão pura.


Alguém pôs a mão
em fogo

dentro do meu nome.


Poema & Fotografia:
J. Alberto de Oliveira

10.2.09

O LÍRICO DIALECTO




O lírico dialecto
da alma.

O sal em sangue
a alastrar no papel.


Fotografia e versos:
J. Alberto de Oliveira

8.2.09

O FULGOR DE FLOR




O fulgor de flor
estrita e branca.

Sensitiva camélia
de neve.

De mim tão alta.


Fotografia e versos:
J. Alberto de Oliveira

7.2.09

LUXUOSA A FERIDA





Da fundura 
tangível da luz

eu não me defendo.

É luxuosa a ferida
em que me apuro.


Fotografia e versos:J. Alberto de Oliveira

21.1.09

OS LIVROS





Os livros são a escada para a casa que ensina a ler e permitem um extraordinário atractivo para o amor, porque transmitem palavras. Nos livros há sempre uma página que te fala. 
Os livros são da substância dos beijos e da boca. Os livros
sentam-se à mesa num estético convívio e, depois, a sua liberdade é tal que, se as folhas se partem, regressam por si sós ao ponto de partida e juntam-se.Quem vê os livros serem pombas somente ligadas por uma fita de voo?

J. Alberto de Oliveira
(com muito ou tudo quase de Maria Gabriela LLansol)

13.1.09

NO CRISTALINO DO DIA





No cristalino do dia
a alvura da neve.

É de luz escrita
o júbilo da terra.


Poema e fotografia:
J. Alberto de Oliveira

10/01/2009

7.1.09

COM A VIDA SE FALA




– Sempre escrevi para uma mãe
– Eu sei. A viver com a vida se fala, Teresa. Só com ela podemos falar. Fala com a tua. Não fales sobre ela. Olha o teu amigo – só lhe resta o desenho de um olhar. Fala com ele. Dá-lhe um corpo
– Isso é ser mãe
– Não, isso é escrever. Meu Deus, vais morrer. Por uma única vez, fala com a tua vida
– A minha vida é ele


Maria Gabriela Llansol ARDENTE TEXTO JOSHUA

3.1.09

NA CALIGRAFIA DO MAR





O dom e a aura elevam
do chão ao pensamento

versos de ouro e água.


Em luz e mistério
se concentra o halo

pensativo do poente.

Na caligrafia do mar
o sol doura letras de sal.


J. Alberto de Oliveira

22.12.08

BILHETE DE NATAL





Marta,
Corre para ti, correndo para o palco ou para o texto onde podes reacender o júbilo, as sementes e os espelhos do mundo.
Corre e leva contigo a alma e o pequeno lápis da tua infância.

Texto e fotografia:
J. Alberto de Oliveira

15.12.08

O VAGABUNDO




A personagem de Charlot, que tantos críticos e biógrafos endeusaram ao serviço das conveniências de cada um, aparece-nos reduzida às justas proporções, com feições de anjo e traços de demónio, meio Quixote, meio Sancho Pança, com coração, cabeça e estômago – o que o torna a figura cem por cento humana.
Esse retrato “tirado pelo natural” desconcerta e decepciona os hagiógrafos de São Charlot, pois desfaz todas as teorias que à roda do bonifrate chaplinesco erigiram para edificação da humanidade.
Chaplin descreve com prodigiosa lucidez o carácter da sua genial criação, que lhe surgiu a bem dizer inteira e completa naquela tarde de Edendale, quando pôs “umas calças muito largas, uns sapatos muito grandes, bengala e chapéu de coco”, e adoptou um bigodinho que o fizesse parecer menos jovem sem contudo lhe esconder a expressão. Indumentária que ele quis “contraditória”, de harmonia com a própria personagem: “as calças largas e o casaco apertado, o chapéu muito pequeno e as botas enormes”. E logo descreveu a Mack Sennett o tipo multifacético que imaginara: “um vagabundo e ao mesmo tempo um cavalheiro, um poeta, um sonhador, um solitário, sempre ansioso por idílios e aventuras”, que “gostaria que o tomassem por um sábio, um músico, um duque ou um jogador de pólo”, mas que “não desdenha apanhar uma beata do chão ou furtar o chupa-chupa a um bebé”, nem “perde a ocasião de dar um pontapé no traseiro de uma senha... mas só quando está fulo!”
Naquele cenário de átrio de hotel em que lhe ensaia os primeiros passos, Chaplin tem a impressão de que Charlot, empertigado e afectado, é “um impostor que se fazia passar por cliente, quando na realidade era um vagabundo que apenas procurava abrigo”.


António Lopes Ribeiro
in “Charles Chaplin – Autobiografia”

9.12.08

QUE HORAS SÃO?




Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais importa.
Para que o horrível fardo do tempo não vos pese sobre os ombros e vos faça pender para a terra, deveis embriagar-vos sem cessar.
Mas de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.
Mas embriagai-vos!
E se um dia nos degraus de um palácio, na erva verde de uma valeta, na solidão baça do vosso quarto, acordardes, já sóbrios, perguntai ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai:
– Que horas são?
– São horas de vos embriagardes!
Para que não sejais os escravos martirizados do tempo, embriagai-vos sem cessar. De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.


Charles Baudelaire(Tradução: Jorge Sousa Braga)

8.12.08

A NEVE






_____ fala-me da neve
e de sua candura profunda.

Fala-me das legendas

que a neve
acende no pensamento.


J. Alberto de Oliveira

CITAÇÕES DO OLHAR





1 –

Antes da palavra

a demora das horas
na fala do olhar.


2 –

A cegueira de ser
água e fogo

argila quente
sopro amoroso.


3 –

A verdade por dentro
das coisas simples.

O ouro da intimidade.

O selo da mais alta palavra.


 J. Alberto de Oliveira

S. FRANCISCO DE ASSIS



S. Francisco de Assis falava outrora
Às aves e às ervinhas, triste e só…
Se tudo quanto vive, sofre e chora,
É a mesma alma eterna, o mesmo pó!

Por isso ele sentia pena e dó
Por tudo quanto doira a luz da aurora,
E não bebeu no poço de Jacob
Aquela água de vida redentora.

Irmão morte, irmão corpo, irmãs ervinhas!
Ó pedras! Ermas fontes pobrezinhas!
Lobos, uivando à lua, em erma serra!

Quanto vos amo em Deus! E sinto bem
Que esta terra que eu beijo é nossa mãe
E que a sombra de Deus anda na Terra!


Teixeira de Pascoaes
Fotografia: J. Alberto de Oliveira

15.10.08

O SOPRO INTUITIVO





O sangue 
rendido à sede.

A linha infalível.

O sopro
intuitivo de Deus.


J. Alberto de Oliveira