3.1.09

NA CALIGRAFIA DO MAR





O dom e a aura elevam
do chão ao pensamento

versos de ouro e água.


Em luz e mistério
se concentra o halo

pensativo do poente.

Na caligrafia do mar
o sol doura letras de sal.


J. Alberto de Oliveira

22.12.08

BILHETE DE NATAL





Marta,
Corre para ti, correndo para o palco ou para o texto onde podes reacender o júbilo, as sementes e os espelhos do mundo.
Corre e leva contigo a alma e o pequeno lápis da tua infância.

Texto e fotografia:
J. Alberto de Oliveira

15.12.08

O VAGABUNDO




A personagem de Charlot, que tantos críticos e biógrafos endeusaram ao serviço das conveniências de cada um, aparece-nos reduzida às justas proporções, com feições de anjo e traços de demónio, meio Quixote, meio Sancho Pança, com coração, cabeça e estômago – o que o torna a figura cem por cento humana.
Esse retrato “tirado pelo natural” desconcerta e decepciona os hagiógrafos de São Charlot, pois desfaz todas as teorias que à roda do bonifrate chaplinesco erigiram para edificação da humanidade.
Chaplin descreve com prodigiosa lucidez o carácter da sua genial criação, que lhe surgiu a bem dizer inteira e completa naquela tarde de Edendale, quando pôs “umas calças muito largas, uns sapatos muito grandes, bengala e chapéu de coco”, e adoptou um bigodinho que o fizesse parecer menos jovem sem contudo lhe esconder a expressão. Indumentária que ele quis “contraditória”, de harmonia com a própria personagem: “as calças largas e o casaco apertado, o chapéu muito pequeno e as botas enormes”. E logo descreveu a Mack Sennett o tipo multifacético que imaginara: “um vagabundo e ao mesmo tempo um cavalheiro, um poeta, um sonhador, um solitário, sempre ansioso por idílios e aventuras”, que “gostaria que o tomassem por um sábio, um músico, um duque ou um jogador de pólo”, mas que “não desdenha apanhar uma beata do chão ou furtar o chupa-chupa a um bebé”, nem “perde a ocasião de dar um pontapé no traseiro de uma senha... mas só quando está fulo!”
Naquele cenário de átrio de hotel em que lhe ensaia os primeiros passos, Chaplin tem a impressão de que Charlot, empertigado e afectado, é “um impostor que se fazia passar por cliente, quando na realidade era um vagabundo que apenas procurava abrigo”.


António Lopes Ribeiro
in “Charles Chaplin – Autobiografia”

9.12.08

QUE HORAS SÃO?




Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais importa.
Para que o horrível fardo do tempo não vos pese sobre os ombros e vos faça pender para a terra, deveis embriagar-vos sem cessar.
Mas de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.
Mas embriagai-vos!
E se um dia nos degraus de um palácio, na erva verde de uma valeta, na solidão baça do vosso quarto, acordardes, já sóbrios, perguntai ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai:
– Que horas são?
– São horas de vos embriagardes!
Para que não sejais os escravos martirizados do tempo, embriagai-vos sem cessar. De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.


Charles Baudelaire(Tradução: Jorge Sousa Braga)

8.12.08

A NEVE






_____ fala-me da neve
e de sua candura profunda.

Fala-me das legendas

que a neve
acende no pensamento.


J. Alberto de Oliveira

CITAÇÕES DO OLHAR





1 –

Antes da palavra

a demora das horas
na fala do olhar.


2 –

A cegueira de ser
água e fogo

argila quente
sopro amoroso.


3 –

A verdade por dentro
das coisas simples.

O ouro da intimidade.

O selo da mais alta palavra.


 J. Alberto de Oliveira

S. FRANCISCO DE ASSIS



S. Francisco de Assis falava outrora
Às aves e às ervinhas, triste e só…
Se tudo quanto vive, sofre e chora,
É a mesma alma eterna, o mesmo pó!

Por isso ele sentia pena e dó
Por tudo quanto doira a luz da aurora,
E não bebeu no poço de Jacob
Aquela água de vida redentora.

Irmão morte, irmão corpo, irmãs ervinhas!
Ó pedras! Ermas fontes pobrezinhas!
Lobos, uivando à lua, em erma serra!

Quanto vos amo em Deus! E sinto bem
Que esta terra que eu beijo é nossa mãe
E que a sombra de Deus anda na Terra!


Teixeira de Pascoaes
Fotografia: J. Alberto de Oliveira

15.10.08

O SOPRO INTUITIVO





O sangue 
rendido à sede.

A linha infalível.

O sopro
intuitivo de Deus.


J. Alberto de Oliveira

7.10.08

O SILÊNCIO VIBRANTE




(...) Falo de uma viagem onde é possível perder o próprio nome, e morrer disso.
E então viver.
Não dormindo, como as nossas bestas respeitáveis.
Viver - digo eu.
E que o nosso afastamento, o silêncio vibrante, a grande morte pensada e amada nas profundidades - fossem bastante para vergar as bestas todas, empurrá-las pelo seu próprio sono abaixo, afundá-las até ao inferno.

Herberto Helder - Apresentação do Rosto

NA CARREIRA DA ESTRELA



Entrando eu num eléctrico (recordo-me bem, era da carreira da Estrela), deparo com Fernando Pessoa que me pergunta de chofre:
– Já notou uma coisa, ó Pascoaes? Há escritores de quem toda a gente fala e ninguém lê, e outros de quem ninguém fala e toda a gente lê. E destas duas espécies, qual, em seu entender, tem mais valor?
Respondi que aqueles de quem toda a gente fala e ninguém lê, e Fernando Pessoa rematou:
– É também a minha opinião.


(De uma entrevista de Teixeira de Pascoaes)

5.10.08

A PRIMEIRA VIAGEM





Não havia mundo.
Não havia coisas.

Era tudo
um fio de quase nada.

Era um fio de luz
o desenho da árvore

onde só havia
sonhos de uma cotovia.


J. Alberto de Oliveira

3.10.08

ESTRELA VIVA NO CÉU





Estrela viva no céu
de tão alto sonhar

diz-me o que vês.

Ensina-me a escrever
segredos de poeta.

Dita-me um poema.


J. Alberto de Oliveira

Fotografia: Carlos de Oliveira

19.9.08

UMA VARA DE FOGO





Uma vara de fogo
me seca a boca.

O ar é pensativo

e quase absorto
nas letras que respiro.


J. Alberto de Oliveira
Fotografia: Ana Afonso

18.9.08

FIGURAS DE BRUMA




Figuras de bruma
iluminam o horizonte.

Acendem as águas
negras do mundo.

Figuras de névoa
de alma e sonhos

perfumam o ar
e o alto silêncio.

Voam com o vento
quando eu corro

atrás de segredos
que já foram

abrigos do fogo.

J. Alberto de Oliveira
10/08/2008
Fotografia: Ana Afonso

TRÊS VEZES AMOR



                                   para a Inês

A menina veio 
para dizer

três vezes amor.

furtivamente
um fio invisível

em pleno 

voo do vento

lhe tocou no rosto.

J. Alberto de Oliveira

30.7.08

SALMO




Livra-me Senhor
das máquinas do vazio.

Livra-me do martelo 

duro da dor

a bater como bate

um coração rude e frio.

J. Alberto de Oliveira

23.7.08

A CASA




A casa que se fez
de alma e pedra

no interior do lugar
e do desenho 


é obra do alicerce.

Mostra a nudez
rasgada na janela.

Acende o silêncio
na primeira chama


que lhe traz o vento.

J. Alberto de Oliveira

25.6.08

O SEGREDO MAIOR





No lugar onde ouvi
o segredo maior


havia um tanque
de água e limos

e delírios da alma.

Florido estremecia
na água o linho.

Estremecia o silêncio
rente à flor do segredo.


J. Alberto de Oliveira

12.6.08

O MENSAGEIRO





Não conheço paixão mais profunda nAquele de que sou mensageiro do que poder dizer, com verdade, a toda a mulher: Bendita sois entre todas ____________.

Maria Gabriela Llansol
in Lisboaleipzig 2