21.2.07
SE VIVO AMOR NOS MOVE
Se vivo amor nos move
que delicado verso
ou palavra amada
em nós começa
em nós se demora
e depois
com sentido pudor
no mar adormece?
J. Alberto de Oliveira
10.2.07
TE DEUM
31.1.07
NO DIALECTO DA ÚMBRIA
Fotografia: J. A. de Oliveira
Perto do fim da sua vida, doente, virtualmente cego, Francisco de Assis escreveu, em louvor a Deus, o "Cantico delle Creature". Redigido numa cabana situada nas proximidades do convento de S. Damião, onde viviam as primeiras clarissas, este texto veio a lume no dialecto da Úmbria, a língua vulgar, do povo, por contraponto ao latim então usado por eruditos e teólogos. Os versos, terminados em 1226, foram publicados no Codex 338 de Assis, um documento no qual, após os versos foi deixado um espaço em branco, um vazio que nunca chegou a receber as notas destinadas a musicar o poema. As palavras de Francisco de Assis, que abraçou o voto de pobreza absoluta como regra de vida, constituem uma espécie de texto panteísta, sendo nele celebrados não só os elementos naturais - o sol, a lua, as estrelas, o vento, a água, o fogo, a terra - mas também "nossa irmã a morte corporal" ("sora nostra morte corporale"), à qual nenhum homem pode escapar. Febril, atormentado por ratos, o Santo, que sempre procurou a negação total de si próprio, quis, mesmo assim, deixar em língua pobre, ainda sem nome, a sua entrega ao silêncio.
Óscar Faria - "Mil Folhas" - 26/01/2007
23.1.07
FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO
Fotografia: J. A. de OliveiraO pórtico da poesia de Fiama:
Água significa ave.
A fala de Fiama Hasse Pais Brandão é um todo coroado pelos seus últimos versos escritos junto ao mar do Algarve:
MEIO DIA / MEU DIA
Na pele sinto o percurso das ondas,
mais amplo e intenso do que o périplo do sol.
E, no entanto, este vai-se gerando a si mesmo,
a cada momento, até à placidez
do meio-dia. São feitos de horas, contínuas, eternas,
aqui, na ria, os dias. Hoje,
meu dia, o coração e o dia rejubilam.
10.1.07
MATÉRIA LUMINOSA
28.12.06
NA MARGEM LUMINOSA
12.12.06
A LÍDIMA COR
Espero do silêncio
a lídima cor da púrpura.
A púrpura molhada
pelo ouro da plenitude.
O ouro verbal das aves.
J. Alberto de Oliveira
11.12.06
LAUDATO SI', MI' SIGNORE!
(...)
Laudato si', mi' Signore, per frate vento
et per aere et nubilo et sereno et onne tempo,
per lo quale a le tue creature dai sustentamento.
Laudato si', mi' Signore, per sora aqua,
la quale è multo utile et humile
et pretiosa et casta.
(...)
S. Francisco de Assis - "Cantico delle Criature"
26.11.06
A VOCAÇÃO DA CALIGRAFIA
15.11.06
A PÚRPURA E O AZUL
A púrpura e o azul
a despir os ombros.
A alma e sua leveza
a iluminar os dedos.
E de súbito no pulso
o bater luzente do nome.
O movimento jubiloso
do lume carnal no pulso.
J. Alberto de Oliveira
10.11.06
O POETA DELIRA
A poesia é uma espécie de língua estrangeira, porque o poeta delira quando escreve.
Será tanto assim?
A resposta vem de Gilles Deleuze:
"L'écrivain, comme dit Proust, invente dans la langue une nouvelle langue, une langue étrangère en quelque sorte. Il met à jour de nouvelles puissances grammaticalles ou syntaxiques. Il entraîne la langue hors de ses sillons coutumiers, il se fait délirer".
UMA LUZ ABSTRACTA
9.11.06
IR CONTIGO A DELFOS
4.11.06
POESIA E MISTÉRIO
Há um domínio da poesia que tem que ver com uma relação com o mistério, com o desconhecido, com aquilo que, do mundo, em nós, nós não compreendemos bem. Aquilo que não conhecemos, mas que reconhecemos como sendo qualquer coisa que já antes existia em nós. Há uma forma de reconhecimento, na poesia, que tem que ver com o mistério.
Manuel António Pina - LER, nº68
COM PALAVRAS
Conta-se que o poeta francês Stéphane Mallarmé terá visitado o pintor Degas no seu atelier e que o pintor lhe disse:
- Oh, caro Mallarmé, tenho ideias fántásticas para poemas, se tivesse o seu talento...
E o poeta respondeu-lhe:
- Meu caro Degas, a poesia não se escreve com ideias, é com palavras.
28.10.06
A QUEIMADURA CELESTE
Em si mesma, para cada um de nós, no momento em que nos toca, como se fosse o dedo de Deus, a poesia esconde-nos da morte. É o único céu portátil de que estamos certos. Um céu de palavras, que de século em século se comunicam, a queimadura celeste que a vida deixou nos nossos vulneráveis corações.
Eduardo Lourenço
12.10.06
O SOM APROXIMATIVO
(Agradecimento ao Dr. José Ribeiro - Edições Afrontamento; à FNAC; aos poetas Manuel António Pina e Cláudio Lima; à Maria Bochicchio; ao actor Alexandre Falcão; ao Dr. Jorge Coelho).
Agradeço, finalmente, àquelas e àqueles que são a raiz dos meus exercícios poéticos. Não refiro nomes. Ou melhor: direi apenas um nome à volta do qual congrego todos os demais.
Falo de alguém com 825 anos. Nasceu em Itália no ano de 1181. Toda a sua vida foi um sublime desafio poético que provinha de uma apurada sensibilidade a transbordar em demasias de amor. Há duas palavras para o seu retrato: vigor e ternura. No dizer de Chesterton "foi o único democrata sincero deste mundo". Tendo ficado cego, numa viagem ao Egipto, ditou aos seus companheiros ou jograis de Deus, dois anos antes de falecer,uma das maravilhas poéticas da Literatura Mundial: "O Cântico das Criaturas" ou vulgarmente dito "O Cântico do Irmão Sol". Falo de S. Francisco de Assis. Perdura na minha sensibilidade e no meu pensamento como um paradigma ou ícone.
Com Francisco de Assis aprendi a ter uma alma de vidro e a dizer o essencial em "poucas e simples palavras".
A terminar e em louvor da Poesia: há palavras que desejam a nossa inocência de ser.
Com alegria cito uma mulher, a escritora Ana Teresa Pereira: "Todos nós precisamos de uns 10% de esperança para continuar a escrever ou para amar outra vez".
(Palavras de agradecimento proferidas por J. Alberto de Oliveira no lançamento de O SOM APROXIMATIVO, em 20/04/2005, na FNAC, Matosinhos)
2.10.06
ACERCA DE "O SOM APROXIMATIVO"
J. Alberto de Oliveira publica o seu primeiro livro nos anos 70. Agora O Som Aproximativo, que é o seu quarto livro, retoma uma poesia que se caracteriza também pela depuração:
O âmago do silêncio
não o dês ao mundo.
Não o desvies da pura
vivência
que se designa
como doçura
o doer íntimo da luz.
De novo a palavra lirismo pode ser invocada para caracterizar uma poesia que "surpreende o vazio" das coisas, "procura a noite dentro do sono", "transfigura as horas e sua poesia" ou fala dos "altos umbrais da poesia".
Fernando Guimarães, in "Crónica de Poesia", JL - 12/09/ 2006
15.9.06
A ÚLTIMA CASA DO MAR
para Mário B.
Não era uma fonte enlevada
nem o cristal do silêncio.
Seria talvez
num poema breve
a última casa do mar.
A casa da transparência
onde moras
sem tempo
nem solidão nas palavras.
J. Alberto de Oliveira
14.9.06
ABISMO
Um dia acorda-se e o abismo é berço,
e o diabo mais do que irmão.
Todo o desvio tem seu preço.
Luísa Neto Jorge
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