1.9.17

ALUMIAÇÕES




Quando fui criança, os nomes que dizia, todos ou quase todos, 
eram incompletos.
Somente o volume e as formas das coisas permaneciam inteiras 
nos meus olhos.
Com os objectos do mundo, na sua complementaridade justa e geométrica,
eu compunha as primeiras frases, incautas, frágeis e breves.
Eram frases de fulgor, lúdicas, miríficas e matinais.

As minhas alumiações começavam pela sensibilidade intemporal da alma.
Com rigor e pudor as transmitia ao papel.
Não pediam nada em troca.
E quando a luz era escassa ou nula, a delicadeza do papel escrito
espelhava um céu de centelhas.

As letras nasciam no momento em que os olhos de ser
e a mão de escrever
tocavam  e perfumavam os sentidos do silêncio.

Pedra a pedra ainda saberei construir a idade que me resta?
Quem me ajuda a erguer ou a restaurar casas invisíveis 
em lugares inacessíveis?
São casas ou abrigos para as folhas do pensamento,
para as alumiações
e para os segredos que um dia não poderei levar comigo.

J. Alberto de Oliveira